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Gest√£o

Aposentados seguem no mercado de trabalho para complementar renda

O trabalho de J√ļlio Hagio √©, como ele mesmo diz, ‚Äúde domingo a domingo‚ÄĚ. O produtor rural acorda √†s 4h, trabalha na lavoura, ajuda nos neg√≥cios dos filhos, faz entregas. A jornada termina por volta das 18h. A rotina √© quase a mesma desde de quando era crian√ßa. Ele come√ßou a ajudar o pai com 8 anos de idade. Hoje, aos 70 e aposentado, Hagio ainda n√£o pode lagar o batente.

‚ÄúEstou recebendo benef√≠cio, aposentadoria, mas com um sal√°rio m√≠nimo s√≥ n√£o tem como a gente sobreviver, n√©? Tem que pagar o rem√©dio, isso, aquilo. A√≠ n√£o sobra nada. Ent√£o, eu ajudo meus filhos, para complementar a renda‚ÄĚ, diz o trabalhador, que vive em Mogi das Cruzes (SP).

Rio de Janeiro (RJ) 30/04/2024 - O personagem J√ļlio Hagio - Aposentados seguem no mercado de trabalho para complementar renda. Foto: J√ļlio Hagio/Arquivo Pessoal
Mesmo aposentado, J√ļlio Hagio¬†trabalha de ‚Äúde domingo a domingo‚ÄĚ para aumentar a renda –¬†J√ļlio Hagio/Arquivo Pessoal

Assim como Hagio, muitos¬†aposentados precisam¬†seguir trabalhando para conseguir se sustentar e sustentar a pr√≥pria fam√≠lia. ‚ÄúA gente tem que lutar na vida para ganhar o p√£o de cada dia. Ent√£o a gente continua desse jeito. Desde crian√ßa eu vivi disso. Ent√£o, na minha idade, eu vou procurar outro servi√ßo? Ningu√©m vai dar o servi√ßo para uma pessoa idosa de certa idade. Ent√£o, fica dif√≠cil. A√≠ a gente vai lutando como pode.‚ÄĚ

Hagio √© um dos 23 milh√Ķes de aposentados no Brasil, de acordo com o Sistema √önico de Informa√ß√Ķes de Benef√≠cio. Segundo o governo federal, o sistema previdenci√°rio √© o maior de todos os programas sociais, concedendo cerca de 40 milh√Ķes de benef√≠cios todo m√™s e injetando mais de R$ 70 bilh√Ķes na economia do pa√≠s. Quase 70% dos munic√≠pios brasileiros dependem dos benef√≠cios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A aposentadoria foi um direito conquistado a partir das greves dos trabalhadores ferrovi√°rios, que culminaram na Lei Eloy Chaves, de 1923, que, por sua vez, obrigou cada companhia ferrovi√°ria do Brasil a criar uma caixa de aposentadorias e pens√Ķes.¬†Desde ent√£o, o direito foi se expandindo e abarcando mais trabalhadores.¬†Esse direito, no entanto, n√£o tem sido suficiente, muitas vezes, para manter os aposentados. Em vez de descansar ou de exercer atividades que lhes tragam prazer, precisam se manter no mercado.

‚ÄúAs pessoas n√£o conseguem permanecer aposentadas e acabam retornando ao mercado de trabalho porque a remunera√ß√£o acaba n√£o sendo suficiente para a sua sobreviv√™ncia‚ÄĚ, diz o secret√°rio nacional de Administra√ß√£o da Central √önica dos Trabalhadores (CUT) Brasil, Ariovaldo de Camargo.

Ele¬†√© o representante da entidade no¬†Conselho Nacional de Previd√™ncia Social. Segundo o √ļltimo Boletim Estat√≠stico da Previd√™ncia Social, de fevereiro de 2024, o valor m√©dio das aposentadorias urbanas √© R$ 1.863,38,¬†e o¬†das rurais, R$ 1.415,06.¬†A garantia de uma aposentadoria digna √© uma das pautas do¬†ato deste 1¬ļ de Maio, Dia do Trabalhador. Diante da implementa√ß√£o da¬†reforma da Previd√™ncia, aprovada em 2019, os trabalhadores dever√£o sentir cada vez mais as altera√ß√Ķes e h√° risco de precariza√ß√£o das condi√ß√Ķes das pessoas idosas no pa√≠s.

‚ÄúQuando se trata de aposentadoria digna, n√≥s estamos apontando o seguinte, n√≥s precisamos primeiro garantir o direito da aposentadoria, porque hoje ela se v√™ amea√ßada, de certa forma, quando voc√™ coloca que para a integralidade de vencimento na aposentadoria, as pessoas t√™m que¬†trabalhar com 40 anos¬†de carteira assinada ou no servi√ßo p√ļblico estatut√°rio. Ou seja, uma corrida de obst√°culos para que as pessoas tenham 40 anos seguidos , ou mesmo que intercalados, contribu√≠dos com a Previd√™ncia, o que √© muito dif√≠cil de ser alcan√ßada‚ÄĚ, diz Camargo.

Professores e aposentadoria

Tamb√©m no estado de S√£o Paulo, assim como Hagio, Dora Cudignola, que √©¬†professora aposentada pelo estado, segue trabalhando na capital paulista para complementar a renda.¬†‚ÄúS√£o muitos gastos, n√©?‚ÄĚ, diz. ‚Äú√Č uma maneira de a gente ganhar um pouco a mais, porque voc√™ sabe que a gente que se aposenta e diminui [a renda], n√©? J√° faz anos que n√≥s n√£o temos aumento. A nossa luta, eu luto por isso tamb√©m, √© por um aumento. O professor, daqui a pouco, est√° ganhando um sal√°rio m√≠nimo. Ele vai chegar a esse ponto. Porque n√≥s n√£o temos aumento h√° muito tempo‚ÄĚ, ressalta.

O presidente da Confedera√ß√£o Nacional dos Trabalhadores em Educa√ß√£o (CNTE), Heleno Ara√ļjo, explica que o sal√°rio dos professores e trabalhadores em educa√ß√£o nas escolas √© composto por benef√≠cios que acabam sendo perdidos na aposentadoria. ‚ÄúComo eles n√£o s√£o contemplados pelo plano de casa e carreira, n√£o s√£o contemplados pelo reajuste do piso do magist√©rio, eles tamb√©m sobrevivem de complementos, n√©? Ent√£o voc√™ tem aux√≠lio-alimenta√ß√£o e outros, que somando, vai juntando e ajudando no seu sal√°rio. Se ele se aposenta, ele perde isso. Ele vai para o sal√°rio b√°sico. E a√≠ ele n√£o consegue, com o sal√°rio b√°sico, manter esse padr√£o de vida dele. A√≠, o que √© que faz? Ele fica trabalhando. √Äs vezes, adoece muito, mas fica trabalhando se ele tiver aposentadoria. Essa tend√™ncia que hoje j√° acontece com os funcion√°rios da educa√ß√£o, a perspectiva √© ela acontecer tamb√©m com todo o magist√©rio‚ÄĚ, diz.

Os impactos da reforma, que ainda est√° em per√≠odo de implementa√ß√£o, para a categoria s√£o tamb√©m preocupa√ß√£o entre os professores, de acordo com Ara√ļjo. Ele ressalta¬†o aumento do tempo de contribui√ß√£o considerando¬†‚Äúuma estrutura de escola que traz um adoecimento a um ter√ßo da nossa categoria”. “Isso traz impacto no trabalho da pessoa, na sua autoestima, no processo de planejamento da sua vida. Sem garantir as boas condi√ß√Ķes de trabalho, voc√™ est√° aumentando tamb√©m o processo de adoecimento e de afastamento das atividades de sala de aula. Aumentando tamb√©m o √≠ndice de atestados m√©dicos, de afastamento, a necessidade de contrata√ß√Ķes para substituir esse profissional. Ent√£o, traz um conjunto de preju√≠zos e um ¬†impacto financeiro alto para os munic√≠pios‚ÄĚ, avalia.

Rio de Janeiro (RJ) 30/04/2024 - A personagem Dora Cudignola - Aposentados seguem no mercado de trabalho para complementar renda. Foto: Dora Cudignola/Arquivo Pessoal
Aos 71 anos, a aposentada Dora Cudignola continua trabalhando para ter uma renda um pouco maior –¬†Dora Cudignola/Arquivo pessoal

Dora Cudignola est√° com 71 anos. Ela se aposentou em 2018, ainda antes da vig√™ncia da reforma da Previd√™ncia, que estabeleceu a idade m√≠nima de 57 anos para mulheres e 60 para homens, al√©m de 25 anos de contribui√ß√£o previdenci√°ria para poder se aposentar, ao final do per√≠odo de implementa√ß√£o. Hoje ela √© vice-presidente do EternamenteSOU, associa√ß√£o sem fins lucrativos que atua em prol das pessoas idosas LGBT (L√©sbicas, Gays, Bissexuais e Transg√™nero). Segundo ela, para essa parcela da popula√ß√£o, o envelhecimento sem condi√ß√Ķes dignas gera inda mais vulnerabilidade.

‚ÄúA nossa sociedade j√° n√£o aceita quase os jovens, voc√™ imagina idoso, n√≥s vamos ser chacotas. Olha, √© idoso e ainda √©¬†gay, √© idosa e √© l√©sbica, trans. Se a gente [como idosa] j√° fica vulner√°vel, [como LGBT] fica muito mais”, diz.

“A gente v√™ como que a sociedade j√° n√£o aceita muito algumas coisas. Para a sociedade, ser idoso √© j√° n√£o ter serventia. N√≥s servimos sim, n√≥s vivemos, n√≥s respiramos, n√≥s amamos, odiamos, e tudo que temos direito. N√≥s somos pessoas vivas que temos muito pra dar e a gente tamb√©m ouve e troca experi√™ncias, isso √© muito importante‚ÄĚ, ressalta Dora Cudignola.

Planejamento

Eduardo Aguiar, 65 anos, √© tamb√©m um dos funcion√°rios do EternamenteSOU. Aguiar est√° em vias de se aposentar, o processo dever√° ser conclu√≠do este ano. Como Dora Cudignola, ele n√£o ir√° parar de trabalhar. ‚ÄúProvavelmente eu vou receber um sal√°rio [m√≠nimo]. Hoje recebo um pouco mais, a√≠, se juntar as duas coisas, d√° para viver um pouquinho, mas est√° dif√≠cil‚ÄĚ, diz.

Aguiar trabalha com gest√£o de projetos culturais. Os trabalhos s√£o projetos tempor√°rios, que n√£o lhe conferem uma estabilidade salarial todos os meses. Ele conta que acabou n√£o planejando a aposentadoria.

‚ÄúVoc√™ paga 30 e tantos anos [a Previd√™ncia Social] e n√£o consegue, ao se aposentar, ter o sal√°rio que voc√™ tinha na ativa, sendo que voc√™ tem gastos muito semelhantes, tanto na ativa quanto na aposentadoria. Voc√™ n√£o deixa de pagar aluguel, condom√≠nio, n√£o deixa de comer, de ter roupa, um monte de outras coisas que est√£o necess√°rias para a sobreviv√™ncia. Inclusive, aumentam alguns gastos.‚ÄĚ

Ao contr√°rio de Aguiar, Sandra Nascimento conseguiu se planejar. Ela vem de uma realidade diferente, era funcion√°ria p√ļblica e se aposentou ap√≥s trabalhar 30 anos com recursos humanos, em 2020. Hoje com 55 anos, ela conta que come√ßou a se planejar cerca de de anos antes de se aposentar. Ela queria mudar de carreira. Hoje √© empreendedora e tem a pr√≥pria marca,¬†Sandra com Elas, trabalha como consultora, desenvolvimento humano, sa√ļde e bem-estar. O que ganha, apesar de ter estabilidade, tamb√©m complementa a renda.

‚ÄúEu observava que, principalmente para as mulheres, tem essa coisa de ‚Äėeu me aposentei, o que eu vou fazer depois?‚Äô N√£o, voc√™ tem uma gama de coisas que voc√™ pode fazer ap√≥s a aposentadoria, n√©? A aposentadoria, ela n√£o te limita‚ÄĚ, diz. ‚ÄúQuando voc√™ busca o conhecimento, ele te abre portas que voc√™ jamais imaginou, √© justamente isso que eu estou passando. Porque at√© ent√£o, eu s√≥ pensei que eu estaria palestrando. De repente, eu estou organizando palestra, eu estou com um grupo de mulheres, empreendedoras, com alguns coletivos, com¬†podcast. Ent√£o, assim, pensando na minha trajet√≥ria, eu tive um ganho. O conhecimento me trouxe um ganho‚ÄĚ, acrescenta.

Discuss√£o urgente

Segundo a coordenadora de Extens√£o do N√ļcleo de Envelhecimento Humano da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Sandra Rabello, que √© presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, n√£o √© de hoje que as aposentadorias n√£o s√£o capazes de sustentar os trabalhadores e garantir um descaso e qualidade de vida. ‚ÄúNo contexto da maioria da popula√ß√£o, aquela popula√ß√£o mesmo que tem, depois da aposentadoria, que depender do INSS , isso j√° √© um fato que j√° vem ocorrendo h√° mais ou menos 20 anos. √Č aquela quest√£o do d√©ficit nos sal√°rios e h√° uma dificuldade de complementa√ß√£o‚ÄĚ, diz.

A coordenadora explica que a popula√ß√£o est√° envelhecendo e¬†est√° vivendo mais, e que isso que traz um desafio para a Previd√™ncia Social, que precisa manter as pessoas por mais tempo, mas isso precisa ser feito de forma digna, para que elas n√£o precisem se submeter a condi√ß√Ķes prec√°rias de trabalho.

‚ÄúComo as pessoas est√£o vivendo mais, a Previd√™ncia tem que entender e tem que discutir, tem que trabalhar num outro vi√©s para que atenda essa aposentadoria de uma forma digna. Isso hoje n√£o existe, ent√£o recai nessa precariedade das pessoas ainda continuarem trabalhando, mas j√° envelhecidas, sem condi√ß√£o de se manter no trabalho e se mant√©m por uma subsist√™ncia para poder continuar vivendo com o m√≠nimo poss√≠vel‚ÄĚ, destaca Sandra Rabello.

Por outro lado, o mercado deve ser capaz de absorver de forma tamb√©m digna aquelas pessoas que desejarem seguir trabalhando ap√≥s a aposentadoria, segundo Rabello. O Estatuto do Idoso garante √† pessoa idosa¬†o direito ao exerc√≠cio de atividade profissional, respeitadas suas condi√ß√Ķes f√≠sicas, intelectuais e ps√≠quicas. Tamb√©m estabelece que, na admiss√£o da pessoa idosa em qualquer trabalho ou emprego, s√£o vedadas a discrimina√ß√£o e a fixa√ß√£o de limite m√°ximo de idade. ‚ÄúNo Estatuto da Pessoa Idosa h√°, vamos dizer assim, uma motiva√ß√£o para que essas pessoas, caso desejem continuar trabalhando, o mercado abrir√° oportunidades para elas. S√≥ que o mercado n√£o abriu oportunidades. H√° uma precariza√ß√£o dessas pessoas de 60 anos ou mais no mercado de trabalho‚ÄĚ, diz.

O cen√°rio dever√° se acentuar com a implementa√ß√£o da reforma da Previd√™ncia, que torna mais urgente a discuss√£o, de acordo com Rabello, da presen√ßa de pessoas idosas no mercado de trabalho. “H√° uma dificuldade, no futuro, de manter uma aposentadoria e uma necessidade de voltar ou de continuar no mercado de trabalho, fazendo o seu trabalho, sem oportunidade de ter a certo a sua aposentadoria para fazer alguma coisa que gosta. Ent√£o, isso √© uma realidade. Isso √© uma realidade que ainda n√£o est√° sendo discutida em n√≠vel nacional para a gente poder ampliar as possibilidades na Previd√™ncia.”

Edição: Juliana Andrade