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inovação

Quem é Daniela Santoro, a pesquisadora brasileira que está criando um spray nasal contra a Covid-19

Aos 10 anos, quando a brasiliense Daniela Santoro assistia a rotina de vacinação de sua irmã mais nova, apenas uma coisa passava pela sua cabeça: como uma simples gotinha pode salvar a vida de uma criança? Na época, ela não tinha resposta para essa pergunta, mas já achava a história fascinante. Hoje, Daniela transformou a curiosidade em estudo e se tornou imunologista e docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Mais do que isso, aos 46 anos, a pesquisadora está entre os 30 cientistas que trabalham para criar o spray nasal que promete ser um reforço para a imunidade contra a Covid-19.

‚ÄúA pessoa √© infectada pelo SARS-CoV 2 por got√≠culas que entram pelas vias √°reas superiores. Queremos induzir uma resposta imune na mucosa para tentar impedir que a infec√ß√£o ocorra e refor√ßar o trabalho das vacinas‚ÄĚ, explica Daniela. As vacinas que temos at√© o momento s√£o intramusculares e estimulam a produ√ß√£o de anticorpos dos tipos IgM e IgG, que circulam no sangue e no plasma. ‚ÄúElas s√£o muito eficazes no combate ao v√≠rus, sem d√ļvidas. No entanto, ainda enfrentam o desafio de barrar a grande capacidade de transmiss√£o desse v√≠rus.‚ÄĚ

Por enquanto, ainda n√£o se sabe quantas doses seriam necess√°rias para confirmar o refor√ßo, mas a ideia √© terminar os testes at√© o final do ano e seguir para os testes cl√≠nicos em pessoas em 2022. Os pesquisadores esperam distribuir o imunizante completamente brasileiro pelo SUS (Sistema √önico de Sa√ļde), que poderia ser aplicado pelo pr√≥prio paciente e oferecido em farm√°cias, sem a necessidade de um profissional de sa√ļde para aplicar. Outra boa not√≠cia √© que a vacina sint√©tica em forma de spray n√£o √© produzida com v√≠rus ativado, ent√£o tem baixo risco de efeitos colaterais.

Quando os primeiros casos de Covid-19 foram registrados em solo nacional, a Unifesp foi procurada pela CNEN (Comiss√£o Nacional de Energia Nuclear) para compartilhar o laborat√≥rio, que √© n√≠vel tr√™s de seguran√ßa (espa√ßo para trabalho com agentes de risco biol√≥gico de risco individual elevado), para testar compostos do v√≠rus. ‚ÄúEm poucas semanas, nos envolvemos com a situa√ß√£o e formamos uma esp√©cie de cons√≥rcio de pesquisadores com o intuito de tentar desenvolver uma vacina completamente brasileira‚ÄĚ, conta. Em parceria com o laborat√≥rio do Dr. Roberto Kalil no Incor (Instituto do Cora√ß√£o do Hospital das Cl√≠nicas), mais de 30 estudiosos se envolveram no trabalho, com financiamento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

Filha de um pai militar e de uma m√£e administradora, Daniela n√£o tinha refer√™ncias familiares na √°rea da ci√™ncia. Foi dentro de casa que ela percebeu o quanto as pessoas ainda n√£o entendem como √© a vida de um pesquisador. ‚ÄúNo come√ßo, minha escolha gerou uma certa estranheza. Me perguntavam se minha profiss√£o era ser estudante e n√£o entendiam como isso podia ser um trabalho.‚ÄĚ

Formada em biomedicina pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), a pesquisadora se mudou para S√£o Paulo assim que terminou a gradua√ß√£o. Seu sonho era estudar na Unifesp, onde fez um mestrado em imunologia. Tanto no mestrado quanto no doutorado ‚Äď feito em partes na Fran√ßa -, o foco era a vacina para a mal√°ria. J√° no p√≥s-doutorado, come√ßou a pesquisar imunizantes contra o HIV.

Em 2010, j√° como professora da Unifesp, ganhou a oportunidade de ter seu pr√≥prio laborat√≥rio. ‚ÄúComecei trabalhando com HIV, mas em 2014 os primeiros casos de zika e chikungunya surgiram, ent√£o direcionei os esfor√ßos para vacinas nessa √°rea‚ÄĚ, diz. Nesse meio tempo, a professora se interessou por uma segunda linha de estudo: a rela√ß√£o entre sono e imunidade. ‚ÄúEstabeleci uma linha de pesquisa no meu laborat√≥rio para estudar a rela√ß√£o entre a resposta imune do corpo humano e os dist√ļrbios de sono.‚ÄĚ

Com esse novo campo de atua√ß√£o, Daniela espera alcan√ßar reconhecimento no Brasil. ‚ÄúQuando publicamos artigos, mostramos nosso potencial para a comunidade cient√≠fica internacional. Mas a popula√ß√£o brasileira, de um modo geral, nunca deu muito valor √† ci√™ncia. Espero que isso tenha mudado um pouco durante a pandemia‚ÄĚ, diz. Seu sonho √© assistir outras crian√ßas se apaixonando pelo mundo das vacinas e dos imunizantes da mesma forma que aconteceu com ela durante a inf√Ęncia.

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