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Captação de água do Lago Paranoá entra em operação hoje

 

A primeira obra de capta√ß√£o de √°gua a ser inaugurada no Distrito Federal nos anos 2000 come√ßa hoje. Durante cinco meses, 200 pessoas trabalharam sete dias por semana para que o Subsistema do Lago Parano√° fosse entregue ‚ÄĒ mesmo assim, houve 30 dias de atraso. A obra, al√©m de marcar a retomada dos investimentos do governo em abastecimento h√≠drico, ser√° pioneira na capital federal ao captar √°gua em um mesmo ponto receptor de esgoto tratado, ou seja, o espelho d‚Äô√°gua. O fato abre debate entre especialistas, que alertam para a capacidade do reservat√≥rio em diluir elementos qu√≠micos, como o f√≥sforo.

Segundo a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), mesmo que o lan√ßamento de esgoto tratado contribua para o aporte de f√≥sforo no Lago Parano√°, √© a emiss√£o indevida do recurso, antes do tratamento, o respons√°vel pelo aumento significativo do elemento qu√≠mico. O ato √© enquadrado na Lei n¬ļ 9.605, de 1998, norma dos crimes ambientais, com pena de reclus√£o de 1 a 5 anos. Na √ļltima semana, a Ag√™ncia Nacional das √Āguas (ANA) divulgou o Atlas Esgotos, mostrando que o DF √© a √ļnica unidade da Federa√ß√£o a tratar todo o dejeto coletado. Por√©m, 17% da popula√ß√£o ainda est√£o √† margem dessa realidade. Moradores de √°reas de loteamento irregulares, onde n√£o h√° rede, convivem com vazamentos que chegam aos mananciais.

Quinze Esta√ß√Ķes de Tratamento de Esgoto (ETE) est√£o em funcionamento no DF. Duas delas, localizadas nas asas Sul e Norte, t√™m o Lago Parano√° como receptor. No total, as esta√ß√Ķes devolvem 1.769 litros de esgoto tratado por segundo. O Correio visitou o ETE Sul na √ļltima semana e acompanhou o processo. O rejeito chega √† esta√ß√£o por um canal coberto, para evitar que o odor e os gases poluentes se espalhem. O primeiro filtro √© um gradeamento grosseiro, que impede que objetos grandes passem para as pr√≥ximas etapas. Nos √ļltimos anos, a grade parou de pneus a cad√°veres.

Dois filtros são responsáveis por separar os detritos. O que é retirado segue para um contêiner de 1,4 mil litros, que logo se enche com uma massa verde, contando desde fezes até restos de preservativos. O recipiente fica escondido em uma edificação sem janelas, onde só há duas entradas, por um cano e por um portão. No local, o cheiro é insuportável.

Ap√≥s a separa√ß√£o, a fase l√≠quida segue para os reatores aer√≥bios, que, por meio de bact√©rias espec√≠ficas, degradam a mat√©ria org√Ęnica e os nutrientes. O esgoto, ent√£o, vai para os decantadores secund√°rios, para a separa√ß√£o de micro-organismos da √°gua tratada. As bact√©rias s√£o devolvidas para a esta√ß√£o a fim de receberem o novo esgoto, e a fase l√≠quida √© lan√ßada no corpo receptor. Testes de qualidade ocorrem a cada 15 minutos na ETE Sul. A √°gua que entra no Lago Parano√° √© impr√≥pria para consumo, rica em nitrog√™nio, mas apresenta a mesma transpar√™ncia da √°gua pot√°vel e odor quase impercept√≠vel.

 

Debate

O Minist√©rio P√ļblico do Distrito Federal e Territ√≥rios (MPDFT) acompanha a situa√ß√£o do esgoto no Lago Parano√°. A promotora de Defesa do Meio Ambiente Marla Eliana de Oliveira alerta para a prolifera√ß√£o de algas no espelho d‚Äô√°gua, sinal do florescimento desregulado de cianobact√©rias. O fen√īmeno altera a cor da √°gua para um verde intenso e diminui o √≠ndice de oxig√™nio, resultando na morte de muitos peixes. ‚ÄúO perigo da capta√ß√£o do Lago Parano√° √© que, se voc√™ retira √°gua para o abastecimento, a capacidade de dilui√ß√£o de impurezas cai. √Č uma situa√ß√£o com que precisamos ter bastante cuidado‚ÄĚ, explica.

Para o professor S√©rgio Koide, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Bras√≠lia (UnB), as liga√ß√Ķes clandestinas de esgoto colocam em risco a qualidade da √°gua. ‚ÄúA regi√£o do Lago Parano√° √© rodeada por novos bairros e clubes, que podem gerar problemas com a entrada de elementos qu√≠micos. Seja pelo bombeamento irregular de esgoto direto para o lago, seja pelo f√≥sforo que vem dos jardins. O excedente do que √© adubado acaba sendo levado pelas chuvas‚ÄĚ, detalha.

Segundo S√©rgio, nos √ļltimos anos, exemplos pr√°ticos revelam queda na qualidade da √°gua devido ao f√≥sforo. Foi o que se viu no Lago Norte, quando se formaram v√°rios cord√Ķes de l√≠quido verde. ‚ÄúPara essa primeira capta√ß√£o, que √© menor, n√£o acredito que v√° piorar a situa√ß√£o do lago. Mas agora que estamos tratando de um lago em que a √°gua ser√° utilizada para consumo humano, esperamos que os √≥rg√£os p√ļblicos e a popula√ß√£o comecem a se preocupar mais com essas quest√Ķes‚ÄĚ, cobra.

A efici√™ncia m√©dia de remo√ß√£o de mat√©ria org√Ęnica nas ETEs de Bras√≠lia √© de 92%. Por nota, a Caesb informa que, para implantar a capta√ß√£o do Lago Parano√°, realizou-se um estudo de impacto ambiental para que a obra passasse por licenciamento. ‚ÄúFoi avaliada a condi√ß√£o de qualidade da √°gua do Lago Parano√°, mostrando-se compat√≠vel para abastecimento p√ļblico. O monitoramento sistem√°tico da qualidade da √°gua √© medida necess√°ria que a Caesb realiza, sendo fundamental para acompanhar eventuais varia√ß√Ķes da qualidade‚ÄĚ, ressalta.

 

Investimento

Construída para abastecer Lago Norte, Paranoá, Itapoã e Taquari, a obra do Lago Paranoá começará captando 350 litros de água por segundo. Durante 90 dias, a operação será assistida pela empresa responsável pelo projeto, a Enfil, e, ao decorrer do período, a vazão aumentará até chegar a 700 litros por segundo. A verba para a construção saiu da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, ligada ao Ministério da Integração Nacional, com o objetivo de diminuir a crise hídrica enfrentada pelo DF desde o ano passado.

  • 533 – Notifica√ß√Ķes relacionadas ao uso irregular de recursos h√≠dricos apenas neste ano
  • 41 – Dessas foram consideradas infra√ß√Ķes, sendo punidas com reclus√£o

 

Memória

Peixes mortos

Em 1¬ļ de julho, centenas de peixes mortos apareceram √†s margens do Lago Parano√°, pr√≥ximo ao N√ļcleo Rural do Boqueir√£o. Relat√≥rio do Instituto Bras√≠lia Ambiental (Ibram) mostrou que o incidente se deu por dois motivos: a Barragem do Lago Parano√° ficou, durante seis dias, com a vaz√£o das comportas reduzidas a zero, enquanto a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) manteve o volume de esgoto tratado lan√ßado no rio. Com isso, os n√≠veis de f√≥sforo e de nitrog√™nio encontrados na √°gua n√£o conseguiram ser dilu√≠dos, provocando o fen√īmeno.

 

Foto: Reprodução

Fonte: CorreioBraziliense

 

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