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1.0 - RADARmundo

Entenda a situação caótica da Somália

 

Um caminh√£o com centenas de quilos de bombas explodiu perto do Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores da¬†Som√°lia. Duas horas depois, outra explos√£o ocorreu na regi√£o da Universidade Nacional Somali. Duas √°reas movimentadas, em uma cidade de 1,5 milh√£o de habitantes. Isso foi no s√°bado 14 e, enquanto as buscas nos escombros continuam, o n√ļmero de mortos j√° passa de 300. Pode subir ainda mais, por causa dos corpos incinerados na onda de calor ou severamente mutilados pelas explos√Ķes.¬†Mogad√≠scio foi alvo mais uma vez do terror.

Talvez isso tenha passado batido. Mas foi o pior atentado do mundo desde julho de 2016, quando uma¬†s√©rie de bombas em um mercado de Bagd√° matou mais de 320 pessoas¬†(n√£o, o pior dos √ļltimos tempos n√£o foi o de Paris).

O ataque foi atribu√≠do ao grupo radical isl√Ęmico Al Shabab, parceiro da Al Qaeda no Chifre da √Āfrica. Nos √ļltimos anos, conforme perdia territ√≥rios e poder, a mil√≠cia intensificava os ataques, seguindo um padr√£o de comportamento comum a terroristas acuados, tiranos √† beira da derrota, c√£es raivosos e goleiros desesperados que correm para o outro lado do campo em busca de um gol salvador.

Quanto mais territ√≥rio a Al Shabab perdia, mas terror tocava. Em 2013, membros do grupo abriram fogo e mataram 67 pessoas em um shopping de Nair√≥bi, Qu√™nia ‚Äď pa√≠s fronteiri√ßo para onde a Al Shabab se direcionou com as derrotas em territ√≥rio somali. Em 2015, pior ainda:¬†os terroristas mataram 148 pessoas na Universidade de Garissa, tamb√©m no Qu√™nia.

Apesar de os ataques de 2015 terem sido direcionados a crist√£os e de que¬†a Al Shabab j√° exterminou crist√£os em outras ocasi√Ķes¬†e em outros pa√≠ses, o mais recente atentado n√£o mirou a religi√£o ‚Äď afinal, aconteceu na pr√≥pria capital desse pa√≠s 99,8% mu√ßulmano.

 

CONTEXTO HIST√ďRICO

Para tentar entender o caos que assola o pa√≠s h√° d√©cadas, voltar √† Guerra Fria ajuda. Os somalis, como quase toda a √Āfrica, constitu√≠am um pa√≠s jovem. Ap√≥s 90 anos divididos entre italianos e ingleses, eles se unificaram em 1960. A bandeira com a estrela de cinco pontas representa os cinco grupos que constitu√≠am a Som√°lia hist√≥rica. Os da col√īnia italiana, ao sul, e os da col√īnia inglesa, ao norte, estavam juntos. Mas ainda faltavam aqueles nos vizinhos Djibuti, Eti√≥pia e Qu√™nia.

Em 1974, a Somália, país maior que Bahia, Sergipe e Alagoas juntos, cheio de montanhas no norte e planícies no sul, sentia os acontecimentos conturbados que mudariam o destino da Etiópia. Uma ditadura militar comunista tomou o poder no país, destronando o rei-divindade-rastafári Hailé Selassié. Três anos depois, em um golpe dentro do golpe, Mengistu Haile tornou-se o ditador, adotando uma postura violenta, que massacrava até mesmo os próprios comunistas do país.

Enquanto Mengistu Haile estava ocupado caçando outros comunistas e matando o povo de fome, o ditador da Somália, general Siad Barre, tinha seus próprios planos. Naquele mesmo 1977, ele invadiu o Deserto de Ogaden, a área etíope habitada por somalis.

Pausa para um contexto global. Anos 70, Guerra Fria rolando, aquele conflito tenso em que americanos e sovi√©ticos dividiram o mundo entre si, mas n√£o entraram em guerra oficial e diretamente (apesar de terem participado, quando n√£o causado, de uma s√©rie de conflitos no planeta, o que faz a gente se perguntar o qu√£o ‚Äúfria‚ÄĚ a guerra foi‚Ķ). Mengistu, como √© de se imaginar, era apadrinhado da Uni√£o Sovi√©tica. O problema √© que Barre tamb√©m era, ent√£o Moscou n√£o queria saber de uma guerra entre aliados.

A URSS tentou demover o general somali da ideia. Não deu certo, Moscou deixou Barre à própria sorte, o general debandou para o lado americano do War da Guerra Fria e acabou, mesmo assim, invadindo o deserto. Os etíopes, com a ajuda de cubanos (já que uma mão a mais nunca é demais) expulsaram os invasores, em 1978. Quase 1 milhão de somalis de Ogaden se refugiaram na Somália.

Mesmo derrotado, Barre se manteve no poder até 1991, ano em que também caíram a ditadura de Mengistu Haile e a URSS. A Somália virou um país inviável, com clãs digladiando pelo poder. Tropas da ONU e dos EUA intervieram. Em 1993, dois helicópteros americanos foram derrubados, para a humilhação de Washington (a história rendeu o filme Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott).

O desgoverno na Som√°lia seguiu firme nos anos seguintes. Em 2006, uma nova for√ßa na guerra surgiu, a Uni√£o das Cortes Isl√Ęmicas (UIC), um grupo de mil√≠cias que queria instaurar um Estado isl√Ęmico no pa√≠s.¬†Uma a√ß√£o militar da Eti√≥pia, agora com apoio dos EUA, enfrentou a UIC, junto com o governo pr√≥-Ocidente.¬†Em 2007, o n√ļmero de refugiados no pa√≠s chegou a 1 milh√£o.

A bagun√ßa generalizada tamb√©m propiciou o surgimento de piratas no Golfo de √Āden. Em 2009, foram 214 ataques, e um deles ficou famoso, gra√ßas a Tom Hanks, no filme¬†Capit√£o Philips.¬†Naquele ano, as tropas et√≠opes se retiraram, e o v√°cuo foi aproveitado pela Al Shabab, que conquistou v√°rias por√ß√Ķes do pa√≠s. Em 2011, uma miss√£o de paz da Uni√£o Africana, a Amisom, retomou a ofensiva militar, com apoio americano. Ao mesmo tempo, uma grave seca, aliada √† viol√™ncia, deixou 260 mil mortos.

At√© o ano passado, os redutos do grupo terrorista se reduziram drasticamente. Em fevereiro de 2017, Mohamed Farmaajo tornou-se presidente da Som√°lia, com um discurso de¬†‚Äúin√≠cio de uma era de uni√£o‚ÄĚ. Mas os ataques de s√°bado ainda questionam a viabilidade do pa√≠s. L√° se v√£o 26 anos, o que deixa a Som√°lia um lugar dif√≠cil de ser superado em termos de caos.

DESGRAÇAS
N√£o precisava ser assim. Diferentemente de muitas outras na√ß√Ķes africanas, trata-se de um pa√≠s com basicamente¬†um povo (98,3% somali), apenas dois idioma majorit√°rios (somali e √°rabe), uma religi√£o (Isl√£) e diversos elementos culturais em comum, em um territ√≥rio vasto, dono do maior litoral da √Āfrica continental, com mais de 3 mil quil√īmetros, √†s margens de uma regi√£o globalmente estrat√©gica, entre o Golfo de √Āden e o Oceano √ćndico. Al√©m disso, o pa√≠s tem, possivelmente, grandes reservas de petr√≥leo.

E aí chegamos a outra questão problemática. Como (quase) sempre.

Para especialistas em geopolítica árabe como o diplomata etíope Mohamed Hassan, o interesse dos EUA em enfrentar os clãs trazia, embutida, a intenção de manter o país fragmentado. Eles temeriam que, caso a Somália se torne um país um pouco mais organizado e que consiga explorar suas próprias fontes de petróleo e exportá-las, ela seguiria o exemplo do Sudão: o petróleo que os americanos descobriram no país há 30 anos hoje não é vendido aos EUA, mas à China.

Ent√£o, n√£o seria do interesse de Washington um Estado forte no bico do √ćndico, muito mais perto da √ćndia e da China do que do Texas, com potencial de alimentar um polo econ√īmico no √ćndico africano (o que era um sonho de Nelson Mandela). Al√©m do mais,¬†autoridades somalis j√° est√£o negociando a explora√ß√£o petrol√≠fera no pa√≠s com os chineses. A Guerra Fria acabou, mas o pa√≠s segue em um jogo insalubre e insustent√°vel entre as grandes pot√™ncias.

Existe tamb√©m a possibilidade da fragmenta√ß√£o. A Somalil√Ęndia, regi√£o semides√©rtica na costa do Golfo de √Āden, mais tranquila do que o resto, luta pelo reconhecimento de sua independ√™ncia desde 1991. Enquanto isso, a trag√©dia segue seu ritmo, com pouco interesse despertado do mundo. O caos √© t√£o grande que nem h√° estimativas consistentes de baixas. Os n√ļmeros giram de 500 mil a mais de 1 milh√£o de mortos desde 1991.

 

Foto de capa: Feisal Omar/Reuters

Fonte: Superinteressante

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