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K-pop, o grande novo inimigo da Coreia do Norte ‚ÄĒ segundo Kim Jong-un

Depois de¬†esvaziar um com√≠cio¬†de Donald Trump em 2020, o K-pop chegou √† Coreia do Norte e tem incomodado o ditador Kim Jong-un. Segundo o¬†New York Times, o l√≠der norte-coreano comparou a m√ļsica vinda da Coreia do Sul a um “c√Ęncer vicioso” que est√° corrompendo os “trajes, estilos de cabelo, discursos e comportamentos” da juventude de seu pa√≠s. A m√≠dia estatal chegou a advertir que se n√£o controlarem a dissemina√ß√£o do fen√īmeno, que √© uma febre mundial, sua influ√™ncia pode fazer a na√ß√£o “desmoronar como uma parede √ļmida”. Esse √© mais um cap√≠tulo da guerra cultural deflagrada por Kim, que endureceu a censura e usa a m√≠dia estatal para atacar sem tr√©guas as influ√™ncias ‚Äúanti-socialistas e “n√£o-socialistas‚ÄĚ propagadas atrav√©s do contrabando de entretenimento estrangeiro, especialmente os vindos da Coreia do Sul.

Enxergar a cultura como uma ameaça pode parecer um contra senso em democracias estabelecidas, mas é uma realidade em países de governos autoritários. No caso da Coreia do Norte, a arte do vizinho pode apresentar à população um cenário completamente diferente daquele difundido pela narrativa oficial.

No caso, a Coreia do Norte passou anos pintando a rival do Sul como uma na√ß√£o miser√°vel e cheia de mendigos. Agora, o pa√≠s se v√™ amea√ßado pela imagem retratada nas novelas e filmes sul-coreanos, que contradizem a vers√£o do governo e j√° tem causado baixas ao territ√≥rio socialista. Segundo uma pesquisa feita pelo¬†Instituto de Estudos para a Paz e a Unifica√ß√£o da Universidade Nacional de Seul, das 116 pessoas entrevistadas que fugiram do pa√≠s entre 2018 e 2019, quase a metade delas consumia entretenimento sul-coreano de maneira frequente. ‚ÄúPara Kim Jong-un, a invas√£o cultural da Coreia do Sul foi al√©m de um n√≠vel toler√°vel. Ele teme que seu povo comece a considerar o Sul uma alternativa”, analisou Jiro Ishimaru, editor-chefe do¬†Asia Press International¬†em entrevista ao¬†NYT.

O jornal asi√°tico, ali√°s, divulgou recentemente documentos que indicam que computadores, mensagens de textos e aparelhos musicais tem sido vasculhados em busca de conte√ļdo sul-coreano. Outro ponto que preocupa o governo √© a imita√ß√£o do vocabul√°rio do sul, j√° que algumas mulheres passaram a se referir aos companheiros como ‚Äúoppa,‚ÄĚ ou “honey”, vocativos usados pelas estrelas dos k-dramas, e considerados “pervertidos” por Kim. Gestos popularizados pelos √≠dolos do K-pop, como um cora√ß√£o feito com o indicador e o polegar, tamb√©m t√™m se tornado febre, assim como a est√©tica descolada dos grupos, que contraria o padr√£o estabelecido pelo governo local.

Para tentar se agarrar ao controle, Kim promulgou, em dezembro de 2020, uma lei que estabelece uma pena de cinco a 15 anos de trabalho for√ßado a quem for flagrado assistindo ou sob posse de entretenimento sul-coreano, conforme documentos internos divulgados pelo¬†Daily NK,¬†site com sede em Seul. Antes disso, consumir conte√ļdos do vizinho j√° era uma contraven√ß√£o, mas a puni√ß√£o era de no m√°ximo 5 anos. Com a nova lei, falar, escrever ou cantar no “estilo sul-coreano” pode render at√© dois anos de trabalho for√ßado, e at√© mesmo pena de morte para contrabandista.

Segundo documentos divulgado pelo¬†Daily NK, as autoridades do Norte pediram √† popula√ß√£o que delate os conhecidos que consomem a programa√ß√£o do Sul, mas a estrat√©gia n√£o tem funcionado ‚ÄĒ muitos, inclusive, avisam os vizinhos sobre eventuais batidas policiais, para que tenham tempo de se preparar. ‚ÄúOs jovens acham que n√£o devem nada a Kim Jong-un. Ele precisa reafirmar seu controle ideol√≥gico sobre a juventude se n√£o quiser perder a base para o futuro do governo din√°stico de sua fam√≠lia‚ÄĚ, disse Jung Gwang-il, um desertor que dirige uma rede de contrabando de K-pop para a Coreia do Norte em entrevista ao¬†New York Times. N√£o se pode menosprezar a cultura.

*Por Amanda Capuano/ Veja SP

Foto – capa: BTS (Foto: Richard Brian/Sipa viaa AP Images)