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Cidades com prefeita, em vez de prefeito, tiveram 43% menos mortes na pandemia no Brasil, diz estudo

Refer√™ncia no combate √† covid-19, em 2020, a Nova Zel√Ęndia passou a habitar o imagin√°rio de milh√Ķes de pessoas em seus momentos de t√©dio ou desespero em quarentenas for√ßadas ao redor do mundo. Ali, apenas 26 pessoas morreram em decorr√™ncia da pandemia. Considerada a art√≠fice dos bons resultados sanit√°rios do pa√≠s, a primeira-ministra Jacinda Arden foi comparada a seus pares, como o ex-presidente americano Donald Trump e o mandat√°rio brasileiro Jair Bolsonaro, cujos pa√≠ses registraram juntos mais de 1,1 milh√£o de mortes por infec√ß√Ķes do novo coronav√≠rus.

© Reuters

O desempenho not√°vel de Jacinda e de outras governantes mulheres durante a pandemia, como as l√≠deres de Bangladesh e Taiwan, instalou uma d√ļvida na cabe√ßa de quatro economistas brasileiros. “A gente decidiu investigar se ter uma mulher na gest√£o da crise sanit√°ria poderia levar a uma diferen√ßa das pol√≠ticas p√ļblicas adotadas e causar desfechos melhores do que ter um homem nessa mesma fun√ß√£o”, explica o economista Raphael Bruce, do Insper.

Junto com colegas da Universidade de S√£o Paulo e da Universidade de Barcelona, Bruce assina o rec√©m-publicado estudo “Sob press√£o: a lideran√ßa das mulheres durante a crise da covid-19”, ainda sem revis√£o por outros cientistas. A pesquisa oferece a primeira evid√™ncia de que ter mulheres no poder durante uma pandemia ajuda a salvar mais vidas do que ter um homem na cadeira.

Onde elas mandam: 44% menos mortes, 30% menos interna√ß√Ķes

No trabalho, Bruce e seus colegas usam os mais de 5.000 munic√≠pios do Brasil como uma esp√©cie de laborat√≥rio. Primeiro, os pesquisadores selecionaram apenas os 1.222 munic√≠pios que, nas elei√ß√Ķes de 2016, tiveram elei√ß√£o √† prefeitura realizada em turno √ļnico e em que o primeiro e o segundo colocados fossem de g√™nero diferente. Assim, limitaram a an√°lise a munic√≠pios de at√© 200 mil habitantes.

Depois refinaram ainda mais a amostra, de modo a considerar apenas aqueles em que a corrida eleitoral foi acirrada ‚ÄĒ e a margem de vit√≥ria menor do que 10% do n√ļmero de votos para a candidata ou para o candidato ‚ÄĒ, algo que ocorreu em cerca de 700 localidades.

O desempenho da premi√™ da Nova Zel√Ęndia, Jacinda Ardern, chamou aten√ß√£o de pesquisadores brasileiros¬© Getty Images¬†O desempenho da premi√™ da Nova Zel√Ęndia, Jacinda Ardern, chamou aten√ß√£o de pesquisadores brasileiros

Assim, conseguiram chegar o mais pr√≥ximo poss√≠vel da reprodu√ß√£o das condi√ß√Ķes de um experimento controlado: em pesquisas de vacinas, por exemplo, a defini√ß√£o de quais participantes receber√£o uma dose do imunizante a ser testado ou uma dose de placebo √© feita por sorteio. Isso evita a possibilidade de que o vi√©s de algum pesquisador na sele√ß√£o das pessoas e distribui√ß√£o das doses possa influenciar no efeito causado pelo placebo ou pela vacina.

Do mesmo modo, os economistas olharam para um dado grupo de munic√≠pios pequenos e m√©dios, compar√°veis entre si econ√īmica e demograficamente, em que a chance de haver um homem ou uma mulher na cadeira de prefeito era praticamente aleat√≥ria, quase um acaso.

O passo seguinte foi verificar os dados de mortes e interna√ß√Ķes por S√≠ndrome Respirat√≥ria Aguda Grave (SRAG) de cada um desses 700 munic√≠pios, em 2020, no Sistema de Informa√ß√£o da Vigil√Ęncia Epidemiol√≥gica da Gripe (SIVEP-Gripe), do Minist√©rio da Sa√ļde. Como a distribui√ß√£o e aplica√ß√£o de testes para o novo coronav√≠rus variou muito pelo Brasil, os dados de SRAG t√™m sido adotados como forma de driblar eventuais distor√ß√Ķes por subnotifica√ß√£o de casos e √≥bitos de covid-19.

A conclus√£o foi que munic√≠pios com prefeita tiveram, em m√©dia, 25,5 mortes por 100 mil habitantes a menos do que aqueles em que os chefes do Executivo local eram homens ‚ÄĒ uma diferen√ßa de 43,7% na mortalidade.

Em rela√ß√£o √†s hospitaliza√ß√Ķes, os registros mostram uma redu√ß√£o m√©dia de 30,4% em interna√ß√Ķes por 100 mil habitantes nos munic√≠pios com prefeitas em rela√ß√£o ao mesmo dado de cidades com prefeitos.

Elas obrigam mais o uso de m√°scara

Em uma extrapolação dos resultados, os autores afirmam que se metade dos 5.568 municípios do Brasil fossem liderados por mulheres, seria possível esperar que o país tivesse nesse momento 15% menos mortes do que o total acumulado, de mais de 540 mil. Ou, dito de outra forma, mais de 75 mil pessoas ainda estariam vivas agora. Hoje, menos de 13% das prefeituras do Brasil são comandadas por mulheres.

© BBC

“√Č preciso sempre lembrar que esses dados s√£o v√°lidos para esses munic√≠pios pequenos e m√©dios que foram analisados, mas fizemos esse c√°lculo para mostrar o tamanho da relev√Ęncia do fen√īmeno quando a gente pensa em defini√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas”, afirma o pesquisador Alexsandros Cavgias, da Universidade de Barcelona.

Mas, afinal, o que essas mulheres fizeram de diferente dos seus pares homens que poderia explicar a menor gravidade da pandemia nas cidades delas? Como o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou, ainda no come√ßo da pandemia, em 2020, que os gestores municipais tinham autonomia para adotar medidas em suas cidades, a resposta deveria estar em como prefeitos e prefeitas administraram a crise. Por isso, os pesquisadores verificaram se as prefeituras ordenaram o uso de m√°scaras no munic√≠pio, limitaram a circula√ß√£o em transporte p√ļblico, proibiram aglomera√ß√Ķes, adotaram exig√™ncia de cord√£o sanit√°rio e limitaram o funcionamento de neg√≥cios n√£o essenciais.

E descobriram que, de modo geral, munic√≠pios com mulheres no comando adotaram em uma frequ√™ncia 10% maior esse tipo de medidas n√£o farmacol√≥gicas de combate √† pandemia. No caso das m√°scaras, o n√ļmero de prefeitas que determinou seu uso obrigat√≥rio superou em oito pontos percentuais o dos pares homens. Na obrigatoriedade de testes para entrar na cidade, mulheres superaram homens em 14 pontos percentuais. E na proibi√ß√£o de aglomera√ß√£o, em cinco e meio pontos percentuais.

O que explica a diferença entre a gestão delas e deles?

No estudo, os pesquisadores contemplam as possibilidades de que as mulheres tenham tomado decis√Ķes diferentes ‚ÄĒ e obtido resultados melhores na pandemia ‚ÄĒ por alguns motivos. Avaliam, por exemplo, se a idade menor ou maior de homens e mulheres no cargo poderia ser uma determinante. N√£o houve, no entanto, diferen√ßa significativa quando se comparou os perfis das prefeitas e de seus pares homens.

Outra hip√≥tese era de que a diferen√ßa fosse resultado de um perfil ideol√≥gico das mulheres. As solu√ß√Ķes para a pandemia tornaram-se bandeiras pol√≠ticas de determinados grupos. A direita conservadora, liderada por Bolsonaro, condenou reiteradamente a ado√ß√£o de medidas como uso de m√°scara e restri√ß√£o do com√©rcio e de aglomera√ß√Ķes. “Mas a verdade √© que quando olhamos para os dados sobre posicionamento pol√≠tico-partid√°rio, as mulheres prefeitas tendiam a ser at√© um pouco mais conservadoras do que seus pares homens”, afirma Bruce.

O estudo ainda analisa se as prefeitas poderiam ser, com mais frequ√™ncia, profissionais da sa√ļde, o que poderia impactar suas decis√Ķes pol√≠ticas nessa √°rea. Isso tamb√©m n√£o se comprovou verdadeiro. Tampouco as prefeitas tomaram medidas nos anos anteriores que as tivessem deixado em melhor situa√ß√£o que os governantes homens quando a pandemia chegasse, como o aumento de leitos ou de investimento na sa√ļde.

Do mesmo modo, embora as mulheres prefeitas tivessem, em m√©dia, escolaridade mais alta do que os homens prefeitos, a pesquisa mostrou que a ado√ß√£o de medidas mais r√≠gidas e a redu√ß√£o de mortes e interna√ß√Ķes n√£o variava conforme o n√≠vel educacional, o que tamb√©m levou ao descarte do fator como poss√≠vel explica√ß√£o.

“A verdade √© que por enquanto apenas sabemos o que n√£o causa a diferen√ßa, mas n√£o conseguimos determinar o que est√° por tr√°s do fen√īmeno”, afirma Bruce.

Para Jessica Gagete-Miranda, pesquisadora de pol√≠ticas p√ļblicas da Universit√†’ degli Studi di Milano Bicocca, na It√°lia, que leu o estudo a pedido da BBC News Brasil, a explica√ß√£o para o fen√īmeno pode estar em uma caracter√≠stica frequentemente associada ao g√™nero feminino na literatura cient√≠fica: a maior avers√£o ao risco.

“J√° existem pesquisas mostrando que mulheres, de forma geral, aderiram mais a medidas n√£o farmacol√≥gicas de combate √† covid-19, como distanciamento social e uso de m√°scara. Se mulheres de forma geral fazem isso, mulheres prefeitas tamb√©m devem fazer e essas √ļltimas t√™m poder pol√≠tico para exigir que a popula√ß√£o tamb√©m o fa√ßa”, diz Gagete-Miranda.

Bolsonaro com caixa de cloroquina, em foto de julho de 2020; presidente apostou em medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19© Reuters Bolsonaro com caixa de cloroquina, em foto de julho de 2020; presidente apostou em medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19

Sem espaço no jogo político

Segundo o economista Sergio Firpo, do Insper, que leu o artigo de Bruce, Cavgias e seus colegas, o m√©rito da pesquisa est√° em estabelecer a causalidade entre haver mulheres no poder e haver menos mortes naquela cidade em decorr√™ncia da pandemia ‚ÄĒ o que pode pautar a a√ß√£o de eleitores e agremia√ß√Ķes pol√≠ticas no futuro.

“√Č uma falha n√£o ter uma explica√ß√£o para o fen√īmeno no trabalho. Mas mesmo que n√£o saibamos o que provoca essa diferen√ßa, seria interessante que os partidos e os eleitores observassem esse tipo de coisa para escolher suas apostas, seus candidatos. O ponto √© que existem diferen√ßas na gest√£o entre homens e mulheres e isso √© estrat√©gico”, diz Firpo.

Ele cita um trabalho feito pela economista brasileira Fernanda Brollo que concluiu que as mulheres tendem a se envolver em menos casos de corrup√ß√£o do que os homens. Usando metodologia semelhante √† de Bruce e Cavgias, ela cruzou os resultados de elei√ß√Ķes de 400 munic√≠pios em 2000 e 2004 com as auditorias federais nessas mesmas cidades. Brollo descobriu que os munic√≠pios governados por prefeitas apresentavam entre 29% e 35% menos chances de se envolverem em condutas corruptas do que as de seus pares homens.

Isso, no entanto, não garantiu a elas qualquer vantagem competitiva no sistema político. Durante os períodos analisados, as prefeitas receberam entre 30% e 55% menos aportes de recursos eleitorais para suas campanhas. A probabilidade de serem reeleitas ficou cerca de 20% abaixo da dos candidatos do sexo masculino.

No Brasil, um sistema de cotas foi criado em 1995 para garantir que os partidos pol√≠ticos destinem um percentual de candidaturas a mulheres em elei√ß√Ķes parlamentares proporcionais. Ou seja, n√£o existe qualquer previs√£o de reserva de vagas para mulheres na disputa para o Executivo ‚ÄĒ e o funcionamento do sistema de cotas atual tem se mostrado pouco eficiente para aumentar a presen√ßa delas em cargos eletivos.

Brollo questiona se, caso as mulheres tivessem condi√ß√Ķes competitivas semelhantes √†s dos homens na pol√≠tica, ou se um sistema de cotas fosse adotado no Executivo para assegurar maior espa√ßo pol√≠tico a elas, tais diferen√ßas em rela√ß√£o √† corrup√ß√£o ou √† qualidade da gest√£o de crise ainda se manteriam. “Sabemos que a pol√≠tica brasileira ainda √© bastante dominada por homens. Isso pode fazer com que as exig√™ncias para se eleger uma mulher sejam mais altas do que aquelas para eleger um homem e que apenas mulheres mais qualificadas acabem ganhando as elei√ß√Ķes (ou chegando perto de ganhar)”, diz Gagete-Miranda.

Essa é uma possibilidade que os próprios autores do trabalho dizem ser plausível. De outra forma, Bruce também coloca a questão.

“Talvez as mulheres prefeitas acabem tomando melhores decis√Ķes sob press√£o porque j√° enfrentam mais press√£o e desafios adicionais na carreira pol√≠tica. Mas esse √© um aspecto n√£o observ√°vel da realidade”, conclui.

*Por BBC News

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