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Eu me senti humilhada, com minha dignidade negada, diz vereadora trans de BH

A vereadora Duda Salabert (PDT), primeira mulher transexual eleita em Belo Horizonte, denunciou um sal√£o de beleza por negar o seu atendimento.¬†“Eu me senti humilhada, porque o que estava sendo negado ali n√£o era fazer a minha sobrancelha. O que estava sendo negado era a minha identidade, a minha dignidade”, afirmou em entrevista √† Folha.

A vereadora disse que √© importante que situa√ß√Ķes como a que ela vivenciou ganhem repercuss√£o, para que haja visibilidade para o tema da viol√™ncia contra as pessoas transexuais e travestis.

Salabert, que foi a vereadora mais votada na capital mineira em 2020, também disse que, após sofrer duas ameaças de morte, pensa em concorrer a um cargo federal em 2022. Uma decisão oficial, no entanto, só será tomada no ano que vem.

Sobre o apoio a Ciro Gomes, prov√°vel candidato de seu partido nas elei√ß√Ķes presidenciais do ano que vem, ela diz que a principal preocupa√ß√£o no pleito √© vencer Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores.

A vereadora diz ainda que considera que os principais desafios do campo progressista no ano eleitoral serão o combate às fake News e ao discurso de ódio.

PERGUNTA – Na segunda (25), a senhora denunciou nas redes sociais que teve o atendimento negado em um sal√£o de beleza. Como isso aconteceu?

DUDA SALABERT – Eu fui a um sal√£o de beleza no Shopping Cidade. O sal√£o estava vazio, eu disse que queria fazer a sobrancelha e a atendente respondeu que s√≥ fazia sobrancelhas femininas. Eu respondi que era esse modelo que eu queria, porque a minha sobrancelha √© feminina. Eu expliquei que eu sou uma mulher transexual e gostaria de ser atendida. Essa funcion√°ria, olhando para as outras, disse: ‘n√≥s n√£o vamos te atender, porque voc√™ √© um homem’. A√≠ eu sa√≠ da loja e fui fazer a reclama√ß√£o junto ao atendimento ao cliente do shopping. Eu me senti humilhada, porque o que estava sendo negado ali n√£o era fazer a minha sobrancelha. O que estava sendo negado era a minha identidade, a minha dignidade.

P. РComo a administração do shopping lidou com a situação?

DS РO shopping pediu desculpas, disse que não tolera nenhum tipo de discriminação e que é um espaço aberto à diversidade. Eles disseram que iriam conversar com a responsável da loja.

P. – A senhora fez, ou pretende fazer, uma den√ļncia formal em rela√ß√£o ao caso?

DS – Sim. Eu entendo que essa posi√ß√£o √© importante a fim de dar um contorno pedag√≥gico √† quest√£o, uma vez que muitas pessoas desconhecem que transfobia √© um crime inafian√ß√°vel. Muitas pessoas desconhecem que o crime de transfobia √© equiparado ao racismo no Brasil. √Č importante tomar esse tipo de atitude, a fim de que epis√≥dios como esse n√£o se repitam contra as pessoas travestis e transexuais. Mais importante que punir √© educar.

Como a senhora vê a repercussão desse tipo de situação nas redes sociais e nos veículos de comunicação? Eu acho extremamente importante, porque aborda um tema que foi historicamente silenciado, a violência contra pessoas travestis e transexuais. Muitas pessoas estavam dizendo que tem que respeitar a decisão do estabelecimento. Mas acima da decisão do estabelecimento há uma lei federal e um entendimento da Suprema Corte de que não atender pessoas travestis e transexuais é um crime que gera reclusão de um a três anos.

P. – A senhora foi a primeira vereadora trans eleita em Belo Horizonte. A transfobia j√° afetou seu trabalho como vereadora?

DS – Sim. De modo geral, os vereadores me respeitam e me receberam muito bem. Mas houve epis√≥dios de transfobia expl√≠cita, por exemplo, no dia das mulheres em que criou-se uma mesa diretora s√≥ com mulheres e eu fiz parte. Um vereador bolsonarista disse que n√£o iria tolerar que um homem ocupasse esse espa√ßo e reproduziu in√ļmeras mensagens de √≥dio contra mim. Fato que levou o meu gabinete a processar esse vereador.

P. – A senhora est√° trabalhando em um programa de toler√Ęncia zero em rela√ß√£o ao assassinato de pessoas transexuais e travestis em Belo Horizonte. Como funciona esse programa?

DS – A gente est√° construindo com a Guarda Municipal, a Secretaria de Seguran√ßa P√ļblica e a prefeitura um programa de combate √† discrimina√ß√£o e viol√™ncia contra a comunidade LGBT.

O programa estabelece algumas metas, dentre elas zerar o assassinato de pessoas LGBT em tr√™s anos em Belo Horizonte. A segunda meta √© qualificar a Guarda Municipal, a fim de que eles estejam preparados para acolher as v√≠timas de viol√™ncia. E a terceira √© gerar um relat√≥rio sobre a viol√™ncia e discrimina√ß√£o contra pessoas LGBT do munic√≠pio. Isso √© importante, porque n√£o existe no Brasil n√ļmeros oficiais sobre a viol√™ncia contra pessoas LGBT, o que dificulta a cria√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas.

P. – Sobre as elei√ß√Ķes de 2022, a senhora pretende se candidatar?

DS РApós ser eleita, eu recebi ameaças de morte do maior grupo de ódio da internet brasileira. Se as ameaças aprofundarem eu terei que disputar um cargo na esfera federal, a fim de me mudar para um espaço neutro e ter apoio da polícia federal. Além disso, vou acompanhar a conjuntura política. Se a sociedade entender que a minha participação é importante para o Brasil e para as pautas que carrego, eu posso me candidatar.

Já recebi propostas para disputar o governo de Minas Gerais e o Senado. Essas propostas vieram tanto de partidos da direita, quantro da esquerda, mas estou avaliando o cenário, só vou definir no ano que vem.

P. РCiro Gomes é o pré-candidato do seu partido à Presidência. A senhora já fechou apoio a ele ou avalia outras possibilidades?

DF – Primeiro, eu acho que a nossa maior preocupa√ß√£o √© vencer o Bolsonaro e o bolsonarismo, que infelizmente t√™m aprofundado a crise socioecon√īmica e ambiental que est√° no Brasil. Em rela√ß√£o ao Ciro, quando eu me filiei ao PDT, fizemos um compromisso de ajud√°-lo na constru√ß√£o de um projeto para o pa√≠s e a gente est√° articulando reuni√Ķes, a fim de construir um programa alternativo √† polariza√ß√£o que h√° no pa√≠s.

P. РComo a senhora avalia a polarização entre Lula (PT) e Bolsonaro nas pesquisas?

DF – A polariza√ß√£o √© um fen√īmeno da pol√≠tica. √Č importante ter dois projetos diferentes para serem votados. O que n√≥s temos que combater n√£o √© a polariza√ß√£o, mas a radicaliza√ß√£o, que coloca em risco as institui√ß√Ķes democr√°ticas. Em rela√ß√£o ao Lula e ao Bolsonaro √© importante ver o programa de cada um deles, porque eles ainda n√£o apresentaram o programa, h√° uma disputa em termos de estarem em campos diferentes. Ent√£o, eu vou aguardar para ver os projetos econ√īmicos de cada um.

*Por Isac Godinho/Folha

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