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Relatório mostra problemas na alimentação de escolas do DF

As falhas na alimentação escolar estão entre os principais problemas identificados nos colégios do Plano Piloto que adotaram o regime de ensino integral. A medida, que começou este ano, gerou polêmica entre pais e professores, já que foi necessário promover mudanças no modelo das escolas parque. Um relatório do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, entregue ontem à Secretaria de Educação, aponta lacunas na implantação.

O conselho percorreu escolas do Plano Piloto para avaliar o impacto da medida no ensino, um ano após a adoção das mudanças. Entre as unidades visitadas, está a Escola Classe 8 do Cruzeiro, onde estuda o garoto que desmaiou de fome na semana passada. Um dos grandes problemas identificados no levantamento foi o cansaço extremo dos estudantes, que agora estão no período integral. Para ter aulas de manhã e à tarde, muitos saem de casa às 6h e só retornam depois das 19h. “As crianças não têm descansado adequadamente, o que prejudica o desenvolvimento pedagógico nas escolas classe”, diz um trecho do relatório, que cita ainda o número insuficiente de colchonetes para o repouso dos alunos.

“Essa situação tem causado problemas alarmantes, pois as crianças têm aulas no período todo da manhã (artes, educação física, música e teatro) e não estão descansando adequadamente para as atividades do turno da tarde”, aponta o documento. Segundo o relatório, o rendimento escolar caiu, “pois muitas crianças dormem durante as aulas no período da tarde, pelo evidente cansaço proporcionado pelas aulas constantes e, também, do manejo inadequado do transporte e da alimentação dos alunos”. Segundo o texto, muitos professores oferecem apenas metade das atividades no período vespertino, diante das dificuldades.

Sobre a alimentação dos alunos, o relatório afirma que a merenda ofertada “é de baixo teor nutritivo e sem variedades”. O levantamento apontou que há pequena variedade de proteínas, uso de comidas enlatadas, “principalmente daqueles alimentos ricos em ferro (feijão e carne)”. Os técnicos apontaram o alto número de estudantes que se queixam de dores de cabeça por causa da alimentação inadequada. “Não é oferecido um cardápio diferenciado para crianças com necessidades especiais alimentares, tendo essas crianças levado alimentos de casa e, na maioria das vezes, não saudáveis, como sucos de caixinha, salgadinhos, biscoitos recheados.” O relatório indicou a necessidade de um trabalho com psicólogas e nutricionistas para ajudar alunos com dificuldades alimentares.

“Assim, não há outra solução que não a melhoria na qualidade dos alimentos, enriquecidos com frango, peixe, saladas diversas (que ainda não tem). Os lanches devem ser mais atrativos paras crianças, o que, indubitavelmente, diminuiria a rejeição”. O excesso de carboidratos e a pouca variação do cardápio são problemas identificados.

Queda no rendimento

O servidor público Marco Antônio Barreto, 34 anos, é pai de Yuri, 9 anos, estudante do 3º ano da Escola Classe 209 Sul. O menino estuda no ensino integral, mas o pai reclama do excesso de atividades no período matutino e das falhas na alimentação. “O rendimento dele caiu bastante, o Yuri fica muito cansado. Além disso, o cardápio não é diversificado nem é cumprido. Tem um mês que as crianças comem praticamente só arroz e peixe”, diz Marco Antônio. Por causa dos deslocamentos entre a Escola Parque 308 Sul e a Escola Classe 209 Sul, os estudantes têm de almoçar muito cedo.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Educação informou que o chefe da pasta, Júlio Gregório, recebeu o relatório ontem e ainda não teve tempo de analisar o documento. Por isso, ainda não vai se manifestar sobre o conteúdo.

Problema se repete

As lacunas observadas nas escolas parque se repetem em mais instituições de ensino do Plano Piloto e de outras regionais. A qualidade dos alimentos, a repetição e a composição do cardápio deixam crianças e adolescentes muitas vezes com fome. O Correio percorreu algumas unidades de ensino e ouviu pais e funcionários. A maioria prefere não se identificar. Os estudantes tiveram as identidades preservadas.

Uma moradora de Planaltina de Goiás, cidade distante 64km do DF, sai de casa todos os dias de madrugada, com o filho de 3 anos, rumo à creche na Asa Norte, onde o deixa antes de ir trabalhar. “Meu filho não come na escola. Ele está enjoado de biscoito com suco”, afirma. Segundo a empregada doméstica, a criança já chega à escola alimentada, com o café da manhã que toma me casa. “Mas, infelizmente, ele volta com fome, pois quase não come durante o dia. O jeito é trazer um lanche para ele comer até chegar em casa e jantar.” Em outra escola na região central de Brasília, a reclamação inclui também a qualidade dos alimentos. “Meu filho teve uma diarreia depois de comer biscoito por três dias seguidos”, diz uma moradora de São Sebastião.

No Gama, o aluno de uma escola de ensino médio em tempo integral conta que parou de comer no local após se sentir mal. “A comida é horrível. O único dia que lancho aqui é quando tem comida de verdade”, revela. Outra maneira encontrada pela direção da escola para amenizar o problema foi liberar os alunos para comprar marmitas no almoço. “Quando não dá pra trazer de casa, tenho que comprar ou então ficar com fome até a hora de ir embora”, explica uma aluna que cursa o 2º ano na mesma escola.

Segundo uma merendeira da unidade de ensino, a qualidade dos enlatados enviados pela Secretaria de Educação é péssima. “A gente faz porque tem que fazer. Não tem como substituir por outra coisa”, pontua. “Tentamos fazer de tudo para melhorar o gosto, mas é difícil”, completa.

Também no Gama, alunos de uma escola de educação infantil enjoaram do lanche, sempre biscoito com suco ou leite. “O lanche tinha que ser melhor, mais nutritivo”, opina Eliton Santiago, 41, pai de uma aluna de 5 anos. Vez ou outra, a escola recebe frutas para complementar o cardápio dos alunos, mas de baixa qualidade e em quantidade insuficiente para todos os estudantes. “Tenho que escolher os alunos que serão ‘premiados’ com as poucas frutas que chegam para nós”, relata a diretora. Por conta da rejeição, os alimentos acabam se acumulando. “Temos que fazer os alunos consumirem mesmo contra a vontade, se não, a escola é penalizada. Precisamos pagar se o produto vencer antes de ser feito”, detalhou a diretora.

Alerta

“O conselho vem alertando o governo seguidamente sobre a qualidade dessa comida”, comenta Ana Maria da Mata Soares, conselheira tutelar no Gama há sete anos. Segundo ela, 80% da merenda escolar é composta por biscoito ou carne, frango e feijão enlatado. “Não tem como esse tipo de alimento sustentar uma criança”, critica. Ana Maria acrescenta que, em alguns casos, famílias de alunos pedem uma cesta básica, mas esbarram na demora: pode levar até três meses.

Em nota, a Secretaria de Educação do DF informou que “não há levantamento que confirme que os alimentos servidos não são do gosto dos alunos e, por isso, estragam”. “Além disso, a alimentação escolar tem como uma de suas diretrizes a formação de hábitos alimentares saudáveis, e por vezes os alimentos ‘do gosto’ das crianças não atendem essa prerrogativa”, continua o texto.

Sobre a responsabilização da escola por alimentos vencidos, a pasta explicou que o “Manual de Alimentação prevê que a equipe gestora da unidade escolar que deixa em seu depósito gênero alimentício vencer ou estragar é o responsável pela reposição”.

Escola parque 210/211 Norte

Ausência de refeitório. As refeições são servidas no pátio, ao alcance de pombos.

Escola Classe 411

O lanche contém basicamente biscoito, leite e frutas, não há variação dos alimentos.

Escola Classe 8 do Cruzeiro

Houve relatos de carência de feijão, óleo e sal e reclamações das equipes quanto ao uso de alimentos enlatados, como feijão, frango e carne. “A quantidade e a qualidade da merenda podem melhorar, pois a variedade é escassa, com a oferta de biscoito, suco e leite”, diz o relatório.

Escola Parque 303/304 Norte

Essa foi a única escola identificada pela equipe que apresentou dieta especial para os alunos com algum tipo de restrição alimentar. Um problema apontado pela direção da escola é a pouca variedade para o lanche, com a oferta quase diária de biscoito. A escola não tem a quantidade adequada de copos, talheres e pratos.

Escola Parque 308 Sul

O lanche servido se restringe a biscoito, frutas e sucos. O almoço, no dia da diligência, foi: arroz, batata, carne, feijão e suco de abacaxi. “Os merendeiros alertaram que o frango, a carne e o feijão enlatados não pegam tempero, têm o cheiro ruim e os alunos não gostam.”

 

Foto: Reprodução

Fonte: Correio Braziliense

 

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