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3.0 - Negócios

O Impacto do Coronavírus no Mercado de Luxo

Comiss√£o do Mercado de Luxo

Os con­sum­i­dores de luxo não estão mais ven­do o coro­n­avírus como uma ameaça exis­ten­cial para a econo­mia glob­al, mas sim como uma ameaça pes­soal, que está cau­san­do um dis­tan­ci­a­men­to social. O con­fi­na­men­to está fazen­do com que as pes­soas ten­ham uma out­ra per­cepção da neces­si­dade de um pro­du­to ou serviço de luxo.

O insti¬≠tu¬≠to Alt¬≠agam¬≠ma fez uma pesquisa em fevereiro de 2020 com exec¬≠u¬≠tivos da ind√ļs¬≠tria do luxo que pre¬≠veem que a pan¬≠demia do Covid-19 pode diminuir as ven¬≠das entre 30 e 40 bil¬≠h√Ķes de euros, levan¬≠do a ind√ļs¬≠tria do luxo a n√≠veis nun¬≠ca vis¬≠tos des¬≠de 2015. A Burber¬≠ry est√° em uma situ¬≠a√ß√£o crit¬≠i¬≠ca, pois segun¬≠do a JP Mor¬≠gan, 39% do seu estoque s√£o ven¬≠di¬≠dos para con¬≠sum¬≠i¬≠dores chi¬≠ne¬≠ses (das 64 lojas na Chi¬≠na, 24 foram fechadas).

Uma esti¬≠ma¬≠ti¬≠va fei¬≠ta por pesquisadores da Har¬≠vard, apon¬≠ta que entre 40% e 70% de toda a pop¬≠u¬≠la√ß√£o mundi¬≠al poder√° ser con¬≠t¬≠a¬≠m¬≠i¬≠na¬≠da em algum momen¬≠to pelo coro¬≠n¬≠av√≠rus. Mais de 110 mil pes¬≠soas foram infec¬≠tadas e quase 4 mil mor¬≠reram em todo o mun¬≠do.

A econo¬≠mia mundi¬≠al crescer√° ape¬≠nas 0,5% este ano, ten¬≠do um impacto de US$ 2 tril¬≠h√Ķes no Pro¬≠du¬≠to Inter¬≠no Bru¬≠to (PIB), ou seja, um sus¬≠to na Chi¬≠na se trans¬≠for¬≠mou em um colap¬≠so econ√īmi¬≠co glob¬≠al.

De 17 de janeiro a 11 de mar√ßo, o mer¬≠ca¬≠do de luxo mundi¬≠al j√° perdeu 23% nas ven¬≠das e a situ¬≠a√ß√£o tende a pio¬≠rar com o resul¬≠ta¬≠do dos pr√≥x¬≠i¬≠mos meses com lojas fechadas na Chi¬≠na, Jap√£o, It√°lia, Fran√ßa e Esta¬≠dos Unidos (prin¬≠ci¬≠pais mer¬≠ca¬≠dos). O primeiro trimestre de 2020 ser√° um per√≠o¬≠do per¬≠di¬≠do, mes¬≠mo que as ven¬≠das sejam retomadas no segun¬≠do trimestre, existe o risco de perder o semes¬≠tre inteiro, que √© o que pre¬≠v√™ um relat√≥rio da Boston Con¬≠sult¬≠ing. Muitas mar¬≠cas est√£o com os esto¬≠ques encal¬≠ha¬≠dos e estu¬≠dam can¬≠ce¬≠larem lan√ßa¬≠men¬≠tos.

De acor¬≠do com uma pesquisa recente do Con¬≠sumer Search Group, uma em cada cin¬≠co pes¬≠soas que vivem na Chi¬≠na plane¬≠ja gas¬≠tar menos em pro¬≠du¬≠tos de luxo em 2020. Segun¬≠do a Bain & Com¬≠pa¬≠ny os con¬≠sum¬≠i¬≠dores chi¬≠ne¬≠ses rep¬≠re¬≠sen¬≠tam cer¬≠ca de um ter√ßo do con¬≠sumo mundi¬≠al em luxo, con¬≠tan¬≠do seus gas¬≠tos den¬≠tro e fora do pa√≠s, isso √© mais do que qual¬≠quer out¬≠ra nacional¬≠i¬≠dade.

Depois do recorde nas ven¬≠das e nos lucros em 2019, os con¬≠glom¬≠er¬≠a¬≠dos de luxo est√£o em esta¬≠do de choque com as per¬≠spec¬≠ti¬≠vas para 2020. A Louis Vuit¬≠ton tem 30%da sua recei¬≠ta na Chi¬≠naa Est√©e Laud¬≠er tem 25%.

*O grupo LVMH teve um aumen¬≠to recorde de 15% na recei¬≠ta de 2019, reg¬≠is¬≠tran¬≠do 53,7 bil¬≠h√Ķes de euros em receitas.

A Her¬≠mes fechou 2019 com aumen¬≠to nas ven¬≠das de 34% e lucro opera¬≠cional de 2,3 bil¬≠h√Ķes de euros.

* O grupo Ker¬≠ing fatur¬≠ou 17.5 bil¬≠h√Ķes de d√≥lares em 2019 e a Guc¬≠ci impul¬≠sio¬≠nou ess¬≠es n√ļmeros com o resul¬≠ta¬≠do de 10.42 bil¬≠h√Ķes de d√≥lares.

A Yves Saint Lau¬≠rent teve um aumen¬≠to de 17,5% nas ven¬≠das em 2019.

Grupo Accor teve um lucro de 16% a mais em 2019, com recei¬≠ta de 4 bil¬≠h√Ķes de euros.

A Apple vendeu 10 mil¬≠h√Ķes de rel√≥¬≠gios a mais do que todas as empre¬≠sas de rel√≥¬≠gios su√≠√ßas, sendo 31 mil¬≠h√Ķes de rel√≥¬≠gios ven¬≠di¬≠dos no mun¬≠do inteiro pela Apple con¬≠tra 21.1 mil¬≠h√Ķes de rel√≥¬≠gios das empre¬≠sas su√≠√ßas.

A Embraer fechou 2019 com aumen¬≠to de 3% nos lucros e 198 aeron¬≠aves entregues.

* Grupo JHSF reg¬≠is¬≠tra lucro l√≠qui¬≠do em 2019 de 508%, lucro bru¬≠to de 43.9% e resul¬≠ta¬≠do opera¬≠cional de 104%.

A OMT (Orga¬≠ni¬≠za¬≠√ß√£o Mundi¬≠al de Tur¬≠is¬≠mo), pre¬≠v√™ para o mer¬≠ca¬≠do mundi¬≠al de tur¬≠is¬≠mo uma per¬≠da de US$ 30 bil¬≠h√Ķes a US$ 50 bil¬≠h√Ķes em 2020. √Č o maior rev√©s para a ind√ļs¬≠tria de tur¬≠is¬≠mo, des¬≠de a crise que seguiu os ataques ter¬≠ror¬≠is¬≠tas de 11 de setem¬≠bro de 2001, o sur¬≠to da SARS e a guer¬≠ra no Iraque dois anos depois.

O seg¬≠men¬≠to de tur¬≠is¬≠mo cor¬≠re¬≠spon¬≠deu em 2018, por 10,4% de toda a ativi¬≠dade econ√īmi¬≠ca do plan¬≠e¬≠ta, geran¬≠do 319 mil¬≠h√Ķes de novos empre¬≠gos. O val¬≠or total movi¬≠men¬≠ta¬≠do por essa ind√ļs¬≠tria rep¬≠re¬≠sen¬≠ta US$ 8,8 tril¬≠h√Ķes ao ano ‚ÄĒ quase o dobro do PIB japon√™s, que √© o quar¬≠to do mun¬≠do (US$ 4,9 tril¬≠h√Ķes em 2018). Se fos¬≠se um pa√≠s, o tur¬≠is¬≠mo s√≥ ficaria atr√°s dos Esta¬≠dos Unidos (US$ 20,6 tril¬≠h√Ķes) e da Chi¬≠na (US$ 11,5 tril¬≠h√Ķes).

Abaixo uma pre­visão das per­das em 2020 do Tur­is­mo nos Esta­dos Unidos

 

No Brasil, o tur¬≠is¬≠mo j√° acu¬≠mu¬≠la um pre¬≠ju√≠¬≠zo de 2 bil¬≠h√Ķes de reais, com uma pre¬≠vis√£o de demis¬≠s√£o de 115 mil pos¬≠tos de tra¬≠bal¬≠ho.

No seg¬≠men¬≠to de hote¬≠lar¬≠ia, Hilton Hot√©is fechou 150 hot√©is na Chi¬≠na e todos os seus hot√©is nos Esta¬≠dos Unidos e Canad√°, a rede Mar¬≠riot fechou 90 hot√©is na Chi¬≠na. Estu¬≠dos indicam que a taxa de ocu¬≠pa√ß√£o dos hot√©is ser√° de 10%, cau¬≠san¬≠do um pre¬≠ju√≠¬≠zo sem prece¬≠dentes.

 

No seg¬≠men¬≠to de avi¬≠a√ß√£o com¬≠er¬≠cial segun¬≠do o relat√≥rio divul¬≠ga¬≠do pelo IATA ((Inter¬≠na¬≠tion¬≠al Air Trans¬≠port Asso¬≠ci¬≠a¬≠tion), a esti¬≠ma¬≠ti¬≠va de per¬≠das na avi¬≠a√ß√£o mundi¬≠al pode chegar a 113 bil¬≠h√Ķes de d√≥lares.

A Amer¬≠i¬≠can Air¬≠lines, que √© a com¬≠pan¬≠hia a√©rea que opera o maior n√ļmero de voos entre Brasil e Esta¬≠dos Unidos, can¬≠celou todos os seus voos para o Brasil.

Atual¬≠mente, os con¬≠sum¬≠i¬≠dores de luxo est√£o exper¬≠i¬≠men¬≠tan¬≠do ansiedade e uma sen¬≠sa√ß√£o de inse¬≠gu¬≠ran√ßa muito maior do que a exper¬≠i¬≠men¬≠ta¬≠da na Grande Recess√£o de 2008‚Äď2009, que os con¬≠sum¬≠i¬≠dores de luxo tin¬≠ham uma segu¬≠ran√ßa finan¬≠ceira, isso porque, a maio¬≠r¬≠ia deles dis¬≠pun¬≠ha de recur¬≠sos finan¬≠ceiros para enfrentar a situ¬≠a√ß√£o daque¬≠la √©poca.

No entan¬≠to, esta crise √© difer¬≠ente, pois a amea√ßa ao seu bem-estar f√≠si¬≠co, n√£o tem prece¬≠dentes. Ter√≠amos que olhar para a Segun¬≠da Guer¬≠ra Mundi¬≠al ou, em menor grau, para o 11 de setem¬≠bro para faz¬≠er¬≠mos uma com¬≠para¬≠√ß√£o. Esta¬≠mos sentin¬≠do uma inse¬≠gu¬≠ran√ßa em um n√≠v¬≠el muito baixo. A inten¬≠si¬≠dade dessa ansiedade √© nova para a maio¬≠r¬≠ia de n√≥s.

Anal¬≠isan¬≠do a psi¬≠colo¬≠gia do con¬≠sum¬≠i¬≠dor, itens de luxo ofer¬≠e¬≠cem uma sen¬≠sa√ß√£o de pos¬≠si¬≠bil¬≠i¬≠dade e liber¬≠dade para son¬≠har. Quan¬≠do voc√™ est√° no meio de uma crise, √© dif√≠¬≠cil son¬≠har. As pes¬≠soas est√£o focadas no dia-a-dia e n√£o con¬≠seguem pen¬≠sar em como a vida pode ser mel¬≠hor no futuro. Isso abre out¬≠ra opor¬≠tu¬≠nidade para as mar¬≠cas de luxo serem capazes de fornecer √†s pes¬≠soas esse sen¬≠ti¬≠men¬≠to de aspi¬≠ra√ß√£o e pos¬≠si¬≠bil¬≠i¬≠dade.

Ap√≥s a crise do Covid-19 haver√° uma redefini√ß√£o do sig¬≠nifi¬≠ca¬≠do do Luxo. Ser√° um momen¬≠to para cri¬≠ar e for¬≠t¬≠ale¬≠cer as per¬≠cep√ß√Ķes de uma mar¬≠ca de luxo, que acabam crian¬≠do val¬≠or anco¬≠ra¬≠do nos sig¬≠nifi¬≠ca¬≠dos.

O com¬≠por¬≠ta¬≠men¬≠to dos con¬≠sum¬≠i¬≠dores de luxo ser√° total¬≠mente difer¬≠ente ap√≥s o con¬≠fi¬≠na¬≠men¬≠to social que esta¬≠mos viven¬≠do, que pode durar meses. Esse dis¬≠tan¬≠ci¬≠a¬≠men¬≠to social ir√° cri¬≠ar novas neces¬≠si¬≠dades e novas regras de con¬≠sumo, fazen¬≠do com que as mar¬≠cas de luxo mudem sua for¬≠ma de comu¬≠nicar e atrair os seus clientes.

Clau­dio Diniz

CEO da Mai¬≠son du Luxe, autor dos livros: O Mer¬≠ca¬≠do do Luxo no Brasil: Tend√™n¬≠cias e Opor¬≠tu¬≠nidades, edi¬≠to¬≠ra Seo¬≠man, The Lux¬≠u¬≠ry Mar¬≠ket in Brazil, edi¬≠to¬≠ra Pal¬≠grave Macmil¬≠lan, coor¬≠de¬≠nador da Comis¬≠s√£o de Luxo da C√Ęmara de Com√©r¬≠cio Fran√ßa Brasil, Mem¬≠bro Con¬≠sul¬≠tor da Comis¬≠s√£o de Dire¬≠ito da Moda da OAB, pro¬≠fes¬≠sor de mar¬≠ket¬≠ing de luxo em algu¬≠mas insti¬≠tu¬≠i√ß√Ķes de ensi¬≠no no Brasil. Embaix¬≠ador de Tur¬≠is¬≠mo do Rio de Janeiro, tit¬≠u¬≠lo con¬≠ce¬≠di¬≠do pela Fun¬≠da√ß√£o Ces¬≠granrio.

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