PUBLICIDADE

1.0 - RADAR3.0 - NEG√ďCIOS

Depoimento de Lula como réu de Sérgio Moro durou quase cinco horas

Na tarde desta quarta-feira (10), o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na qualidade de réu ao juiz Sérgio Moro durou cinco horas, num encontro cordial temperado com troca de farpas que foi usado pelo petista para demonstrar força política nas ruas de Curitiba e para consolidar sua defesa.

O interrogat√≥rio de Lula feito por Moro durou cerca de 3 horas e 20 minutos, come√ßando aproximadamente √†s 14h20. Houve um intervalo de cerca de 10 minutos em que as partes puderam se servir de √°gua e caf√©. Ap√≥s o juiz da Lava Jato, foi a vez de o Minist√©rio P√ļblico Federal dar in√≠cio a seus questionamentos, j√° por volta das 17h40.

Confira o vídeo com o depoimento completo de Lula a Sergio Moro:

Nos v√≠deos p√ļblicos feitos momentos depois do encontro, Lula acusou a for√ßa-tarefa do Minist√©rio P√ļblico Federal na Lava Jato, com sede no Paran√°, de querer “criminalizar a sua presid√™ncia”, ainda por cima “sem provas”, no processo que sustenta que ele aceitou da OAS uma reforma num triplex de luxo no Guaruj√° em troca de vantagens na Petrobras. Questionado, o ex-presidente citou algumas vezes sua mulher Marisa, morta em fevereiro, como a interessada no im√≥vel. Negou ter discutido as melhorias e desmentiu uma nota de seu pr√≥prio instituto, de janeiro de 2016, que mencionou que as reformas seriam inclu√≠das no pre√ßo final da unidade, se a fam√≠lia Lula decidisse adquiri-la.

S√©rgio Moro seguiu o roteiro da den√ļncia dos procuradores da Lava Jato, que acusam Lula de ser o “cabe√ßa” do esquema de desvios da Petrobras. O magistrado questionou o ex-presidente sobre nomea√ß√Ķes na estatal, como a do ex-diretor Renato Duque, que, preso e condenado, acusou o petista na semana passada de estar a par da corrup√ß√£o. O ex-presidente negou frontalmente as acusa√ß√Ķes, mas admitiu ter chancelado a indica√ß√£o de Duque e o procurado para discutir os “boatos” de que o ent√£o diretor da Petrobras mantinha conta no exterior. Segundo ele, Duque “mentiu para ele mesmo” ao negar tudo.Com o depoimento desta quarta, Lula, acusado de corrup√ß√£o passiva e lavagem de dinheiro, d√° um passo a mais em dire√ß√£o ao que deve ser sua primeira senten√ßa na Justi√ßa – al√©m do caso do triplex e de um outro, nas m√£os de Moro, ele responde a outras tr√™s a√ß√Ķes penais. Outros inqu√©ritos da for√ßa-tarefa da Lava Jato, ainda em etapa de investiga√ß√£o, podem ir parar nas m√£os do magistrado de Curitiba.

Agora, todos os olhos de voltam para a caneta de Moro, que a defesa de Lula ainda tenta destituir do caso. O magistrado deve estabelecer uma data para que tanto a defesa como as acusa√ß√£o fa√ßam suas considera√ß√Ķes finais no processo para, da√≠, publicar seu veredito. Levando em conta a celeridade de Moro na Lava Jato, isso deve ocorrer em um prazo que varia entre semanas ou poucos meses. O cronograma √© considerado central porque, caso condenado pelo magistrado, Lula entrar√° numa corrida contra o rel√≥gio para evitar uma condena√ß√£o em segunda inst√Ęncia que o tiraria da corrida pelo Planalto em 2018.“O que eu quero √© que se pare com ila√ß√Ķes e me digam o crime que cometi. O crime n√£o √© conversar com algu√©m ou visitar um tr√≠plex. [Cad√™] escritura assinada [por mim]?”, questionou Lula, que em outro momento criticou o¬†pol√™mico powerpoint exibido pelo procurador¬†Deltan Dallagnol que colocava Lula no centro da trama corrupta: “Estou sendo julgado pelo que fiz no Governo, com base na constru√ß√£o de um powerpoint mentiroso, feito por um cidad√£o que, desconhecendo a pol√≠tica, quer rotular o PT como organiza√ß√£o criminosa onde o Lula √© o chefe”, disse. Sua defesa questionou ainda perguntas feitas sobre o Mensal√£o, o esc√Ęndalo de distribui√ß√£o de caixa 2 a aliados no qual o PT foi condenado em 2010.

Segundo a lei brasileira, a acusa√ß√£o n√£o pode se basear apenas nos depoimentos de delatores, v√°rios deles citados por Moro e pela acusa√ß√£o, segundo os quais o tr√≠plex estaria “reservado” a Lula. Por outro lado, a pr√°tica de crimes como oculta√ß√£o de patrim√īnio e lavagem de dinheiro muitas vezes n√£o √© acompanhada por recibos e assinaturas. “Lula teria recebido a vantagem ap√≥s deixar a Presid√™ncia, mas os atos ilegais a ele imputados na den√ļncia remontariam √†s primeiras nomea√ß√Ķes de diretores da Petrobras, em 2003. N√£o √© um nexo simples de se provar”, diz o professor de direito da USP, Rafael Mafei Rabelo Queiroz. Se Lula usasse seu prest√≠gio para ser lobista da OAS, argumenta Queiroz, “n√£o seria laudat√≥rio”, mas tampouco um crime. No entanto, o professor chama aten√ß√£o para o hist√≥rico do magistrado: “Em senten√ßas anteriores na Lava Jato, Moro n√£o teve dificuldades em reconhecer nexos igualmente t√™nues. Ficarei muito surpreso se ele decidir de modo distinto para Lula, ao menos por este motivo”.

 

Roupa suja e futuroNa maior parte do tempo, Lula, com sua gravata de sorte verde e amarela, parecia √† vontade, ante um Moro mais engessado. O petista desfiou respostas de impacto, como cobrar a presen√ßa do procurador Dallagnol, defender seu Governo ou criticar Moro pela divulga√ß√£o de √°udios envolvendo ele e sua fam√≠lia, no ano passado. Tudo a calhar para a guerra posterior, sobre vencedores e derrotados do depoimento transformado em embate pol√≠tico tanto por Lula como por Moro, que diz que o apoio da opini√£o p√ļblica √© central para a Lava Jato.¬†“Eu gostaria de dizer que eu estou sendo v√≠tima da maior ca√ßada jur√≠dica que um presidente e um pol√≠tico brasileiro j√° teve”, disse Lula, que tamb√©m criticou duramente a grande imprensa.

O petista s√≥ pareceu menos confort√°vel quando teve que desmentir uma nota divulgada pelo¬†Instituto Lula¬†em janeiro de 2016. A mensagem, escrita em formato de pergunta e resposta, dizia: ‚ÄúPor que a fam√≠lia desistiu de comprar o apartamento? Porque, mesmo tendo sido realizadas reformas e modifica√ß√Ķes no im√≥vel (que naturalmente seriam incorporadas ao valor final da compra), as not√≠cias infundadas, boatos e ila√ß√Ķes romperam a privacidade necess√°ria ao uso familiar do apartamento‚ÄĚ.

Questionado pelo procurador Roberson Pozzobon, Lula disse que n√£o foi consultado para a elabora√ß√£o da nota. ‚ÄúEu n√£o sou dirigente do instituto. A nota √© feita com a dire√ß√£o do instituto em combina√ß√£o com os advogados que conhecem o projeto e o processo todo. Nem sempre, quando a nota √© feita, eu estou no instituto‚ÄĚ, disse o ex-presidente, que negou tamb√©m, ao contr√°rio do que diz a nota, que soubesse da realiza√ß√£o de reformas no apartamento. Segundo ele, a desist√™ncia da compra ocorreu porque ele percebeu que n√£o poderia usufruir tranquilamente da praia do Guaruj√° enquanto figura p√ļblica.A audi√™ncia terminou evidenciando como protagonista ausente a ex-primeira-dama Marisa Let√≠cia, que morreu ap√≥s um derrame em fevereiro e tamb√©m era r√© na a√ß√£o. Lula disse que sua ent√£o mulher era a interessada no im√≥vel, talvez para “investir”. Afirmou que ela visitou o apartamento ao menos uma vez sem que ele soubesse: “N√£o sei se o senhor tem mulher, mas nem sempre ela pergunta para a gente o que vai fazer”. As cita√ß√Ķes √† ex-primeira-dama n√£o devem parar por a√≠, j√° que delatores da Odebrecht, em casos ainda iniciais, tamb√©m atribuem a Marisa papel importante em decis√Ķes em rela√ß√£o ao s√≠tio de Atibaia, que a acusa√ß√£o considera uma propriedade “camuflada” de Lula. Como a a√ß√£o contra Marisa est√° extinta, a discuss√£o sobre implica√ß√£o legal das men√ß√Ķes deve ganhar peso.

Ap√≥s o depoimento, o petista terminou sua jornada com um r√°pido discurso a apoiadores no centro da capital paranaense no qual voltou a flertar com a candidatura de 2018: “Se um dia eu tiver cometido um erro, n√£o quero ser julgado s√≥ pela Justi√ßa. Quero ser julgado antes pelo povo brasileiro”.

 

Repercuss√£o InternacionalO depoimento de Lula a Moro repercutiu na imprensa internacional. De maneira geral, o encontro foi tratado como a primeira conversa entre duas das figuras mais populares do pa√≠s desde o in√≠cio das investiga√ß√Ķes sobre a corrup√ß√£o no Brasil.

  • O ‚ÄúThe New York Times‚ÄĚ fez um relato do encontro. Falou sobre as suspeitas contra Lula, informou que Moro lidera a maior investiga√ß√£o sobre corrup√ß√£o da hist√≥ria do Brasil e contou como foi a tarde de perguntas e respostas na capital paranaense.
  • Em seu site em ingl√™s, a BBC informou que o ex-presidente Lula foi questionado sobre corrup√ß√£o.
  • O jornal espanhol “El Pa√≠s” diz em seu t√≠tulo que Lula converteu sua declara√ß√£o em uma exibi√ß√£o de poder pol√≠tico.
  • O¬†‚ÄúChina Daily‚ÄĚrelatou que Lula enfrenta a corte pela primeira vez e que o caso atingiu patamares que dividem o p√ļblico.
  • O ‚ÄúClar√≠n‚ÄĚ informou sobre a bipolaridade de uma Curitiba ‚Äúblindada e dividida‚ÄĚ, mas civilizada.
  • O ‚ÄúLe Monde‚ÄĚ previu um futuro pol√≠tico incerto para Lula e o Brasil. Analisou que o depoimento foi tenso. O jornal informou ainda que Lula √© uma estrela adorada e odiada.
  • O¬†‚ÄúLe Figaro‚ÄĚtratou o caso como o duelo entre as duas figuras mais populares do pa√≠s: um ex-chefe de Estado suspeito de se envolver em corrup√ß√£o que enfrenta, pela primeira vez, ‚Äúseu algoz‚ÄĚ, o juiz S√©rgio Moro.
  • O¬†‚ÄúThe Guardian‚ÄĚrelatou que o encontro reuniu o presidente mais popular da hist√≥ria brasileira, referindo-se a Lula, e o her√≥i nacional que prende ricos e poderosos, referindo-se a Moro. O caso, segundo o jornal, est√° dividindo o Brasil.
  • O jornal italiano “La Repubblica” destacou que, enquanto Lula fazia seu depoimento,¬†milhares de partid√°rios saiam √†s ruasem apoio a ele.

 

Fontes: El Pa√≠s, UOL, Isto√Č e G1

Fotos: Reprodução

Vídeo: Exame

PUBLICIDADE