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Sobrevivência para uns, exclusão para outros, máscaras de proteção

As ruas começam a recu­per­ar seu vig­or com transe­untes mas­cara­dos. Por obri­gação, ou por escol­ha, o uso de más­caras de pro­teção se dis­semi­nou nas cidades lati­no-amer­i­canas, trans­for­man­do-se em esper­ança para alguns, e em exclusão, para out­ros.

Emiliana Quispe, membro do grupo feminista Mujeres Creando mostra uma das máscaras com frases lançadas para se sustentarem e, ao mesmo tempo, continuar a divulgar sua mensagem contra a violência de gênero, em La Paz, em 5 de maio de 2020

Artesãos de tra­jes mex­i­canos estam­pam seus desen­hos no novo acessório.

Uma fábri­ca de meias argenti­na adap­ta sua pro­dução para sobre­viv­er.

Na Bolívia, um grupo fem­i­nista imprime suas men­sagens sobre as más­caras, para que o teci­do não amor­dace suas vozes.

Foto: ¬© Aizar RALDES Emil¬≠iana Quispe, mem¬≠bro do grupo fem¬≠i¬≠nista Mujeres Cre¬≠an¬≠do mostra uma das m√°s¬≠caras com fras¬≠es lan√ßadas para se sus¬≠tentarem e, ao mes¬≠mo tem¬≠po, con¬≠tin¬≠uar a divul¬≠gar sua men¬≠sagem con¬≠tra a vio¬≠l√™n¬≠cia de g√™nero, em La Paz, em 5 de maio de 2020

E, enquan¬≠to inven¬≠tores chilenos democ¬≠ra¬≠ti¬≠zam a tec¬≠nolo¬≠gia para cri¬≠ar m√°s¬≠caras, pes¬≠soas hipoac√ļsi¬≠cas e sur¬≠das prop√Ķe m√°s¬≠caras com transpar√™n¬≠cias para evi¬≠tar bar¬≠reiras de comu¬≠ni¬≠ca√ß√£o.

- Tradi√ß√£o e atu¬≠al¬≠i¬≠dade -

A pan­demia colo­cou em uma encruzil­ha­da a fábri­ca e dis­tribuido­ra mex­i­cana Tra­jes Típi­cos Jimy, nasci­da em Guadala­jara, nos anos 1950.

Miguel Castil¬≠lo, respon¬≠s√°v¬≠el pela empre¬≠sa famil¬≠iar, con¬≠ta que hes¬≠i¬≠tou ‚Äú100 vezes‚ÄĚ antes de incor¬≠po¬≠rar as m√°s¬≠caras, por medo de n√£o alcan√ßar os padr√Ķes cir√ļr¬≠gi¬≠cos.

Mas, quan¬≠do o esta¬≠do de Jalis¬≠co come√ßou o con¬≠fi¬≠na¬≠men¬≠to, 140 fam√≠lias que inte¬≠gram a cadeia pro¬≠du¬≠ti¬≠va da empre¬≠sa entraram em p√Ęni¬≠co.

‚ÄúA crise nos atingiu, as ven¬≠das ca√≠ram, as pes¬≠soas come√ßaram a ficar sem tra¬≠bal¬≠ho, tive¬≠mos que fechar lojas‚ÄĚ, rela¬≠ta Castil¬≠lo.

Foi quan­do ele aceitou a pro­pos­ta de uma cos­tureira de Puebla que havia fab­ri­ca­do más­caras com partes de um vesti­do. Esse exem­plar man­tinha a mar­ca tradi­cional dos pro­du­tos que a Tra­jes Jimy vende para os Esta­dos Unidos e para out­ros país­es.

A empre­sa começou, então, a faz­er más­caras de man­ta de algo­dão e fibra nat­ur­al reuti­lizáveis, man­ten­do os desen­hos com icono­grafias aste­cas, flo­res e bonecas.

‚ÄúTemos mil¬≠hares de pedi¬≠dos em espera. H√° 15 dias, estas fam√≠lias n√£o tin¬≠ham o que com¬≠er e, ago¬≠ra, ger¬≠am din¬≠heiro‚ÄĚ, cel¬≠e¬≠bra Castil¬≠lo.

- Dos pés à cabeça -

Ape¬≠sar da recess√£o, a pro¬≠du√ß√£o da f√°bri¬≠ca de meias Sox, de Pig√ľ√©, prov√≠n¬≠cia de Buenos Aires, alcan√ßa¬≠va 160.000 pares por m√™s e sus¬≠ten¬≠ta¬≠va 70 fam√≠lias. O empreendi¬≠men¬≠to j√° pas¬≠sou por v√°rias crises em seus 25 anos de exist√™n¬≠cia.

‚ÄúA difer¬≠en√ßa √© que sem¬≠pre encon¬≠tramos uma for¬≠ma de enfren¬≠t√°-las com o pro¬≠du¬≠to que fab¬≠ri¬≠camos‚ÄĚ, con¬≠ta San¬≠ti¬≠a¬≠go √Ālvarez, respon¬≠s√°v¬≠el pela pro¬≠du√ß√£o.

Ago­ra, a emergên­cia os obrigou a se ren­o­var, mais uma vez.

Em 20 de março, quan­do foi insta­l­a­da a quar­ente­na obri­gatória na Argenti­na, as máquinas pararam. E a exten­são do con­fi­na­men­to em abril frus­trou a esper­ança de reati­vação.

Dias depois de ter envi¬≠a¬≠do os fun¬≠cion√°rios para casa, eles voltaram ao tra¬≠bal¬≠ho e trans¬≠for¬≠maram sua mat√©ria-pri¬≠ma em m√°s¬≠caras ergon√īmi¬≠cas de dupla cama¬≠da de teci¬≠do e reuti¬≠liz√°veis.

Ino¬≠va√ß√£o, mais sub¬≠s√≠¬≠dios e cr√©di¬≠to per¬≠mi¬≠ti¬≠ram super¬≠ar abril, cel¬≠e¬≠bra √Ālvarez.

- O gri­to fem­i­nista -

Em 8 de mar√ßo, mil¬≠hares de mul¬≠heres mar¬≠charam na Bol√≠via, um dos pa√≠s¬≠es com mais alto √≠ndice de fem¬≠i¬≠nic√≠¬≠dios da regi√£o. No dia 22, come√ßou o con¬≠fi¬≠na¬≠men¬≠to.

O movi­men­to fem­i­nista Mujeres Cre­an­do reag­iu à dupla emergên­cia com a ofer­ta de más­caras e álcool em gel vio­le­tas.

Nas m√°s¬≠caras, que cus¬≠tam 10 boli¬≠vianos (ou US$ 1,5 d√≥lar), imprim¬≠i¬≠ram men¬≠sagens como ‚ÄúFicar em casa n√£o √© a mes¬≠ma coisa que se calar em casa‚ÄĚ ‚ÄĒ um pedi¬≠do para que as mul¬≠heres n√£o fiquem cal¬≠adas diante da vio¬≠l√™n¬≠cia de g√™nero, diz Mar√≠a Galin¬≠do, que inte¬≠gra o movi¬≠men¬≠to.

Ela tam­bém denun­ciou a explosão da vio­lên­cia domés­ti­ca, com qua­tro fem­i­nicí­dios cometi­dos durante a quar­ente­na.

‚ÄúPara as mul¬≠heres, a toma¬≠da das ruas √© um mecan¬≠is¬≠mo de eman¬≠ci¬≠pa√ß√£o e uma v√°lvu¬≠la para dis¬≠ten¬≠sion¬≠ar con¬≠fli¬≠tos de vio¬≠l√™n¬≠cia machista‚ÄĚ, afir¬≠ma Mar√≠a.

- Mod­e­los com impressão 3D -

A ideia surgiu muito antes do coro¬≠n¬≠av√≠rus. Em um mestra¬≠do de Ino¬≠va√ß√£o, tr√™s chilenos cri¬≠aram obje¬≠tos antibi√≥ti¬≠cos para lutar con¬≠tra as infec√ß√Ķes.

A Cop­per 3D, empre­sa chileno-amer­i­cana que desen­volve tec­nolo­gia de impressão 3D com mate­ri­ais antimi­cro­bianos e antivi­rais com partícu­las de cobre, surgiu em 2018, sem imag­i­nar o que viria tem­pos depois.

Enquan­to o mun­do aler­ta­va para a escassez de equipa­men­to médi­co diante da pan­demia, a empre­sa começou a imprim­ir más­caras antivi­rais, reuti­lizáveis e de baixo cus­to.

‚ÄúDis¬≠se¬≠mos para n√≥s mes¬≠mos que poder√≠amos desen¬≠har uma m√°s¬≠cara com mate¬≠r¬≠i¬≠al ati¬≠vo que se pos¬≠sa fab¬≠ricar em qual¬≠quer parte‚ÄĚ, afir¬≠mou o dire¬≠tor de Ino¬≠va√ß√£o da Cop¬≠per 3D, Daniel Mart√≠nez.

Sua con¬≠tribui√ß√£o ultra¬≠pas¬≠sou fron¬≠teiras, quan¬≠do a empre¬≠sa decid¬≠iu lib¬≠er¬≠ar os moldes de seu inven¬≠to, o NanoHack, ‚Äúcon¬≠vo¬≠can¬≠do √† a√ß√£o‚ÄĚ quem tivesse impres¬≠so¬≠ras 3D.

A con¬≠vo¬≠ca√ß√£o surgiu efeito: sete mil¬≠h√Ķes de down¬≠loads na primeira sem¬≠ana, e uma esti¬≠ma¬≠ti¬≠va de mais de 15 mil¬≠h√Ķes atual¬≠mente.

- Más­caras inclu­si­vas -

‚ÄúEu me sin¬≠to dis¬≠crim¬≠i¬≠na¬≠do‚ÄĚ, diz Daniel Ouanono, que se ref¬≠ere √†s m√°s¬≠caras como uma ‚Äúbar¬≠reira comu¬≠ni¬≠ca¬≠cional‚ÄĚ para quem √© hipoac√ļsi¬≠cos ‚ÄĒ como ele ‚ÄĒ e para as pes¬≠soas sur¬≠das, ao impedir a leitu¬≠ra labi¬≠al.

Este advo¬≠ga¬≠do argenti¬≠no apre¬≠sen¬≠tou √† Asso¬≠ci¬≠a√ß√£o Civ¬≠il Fordes uma peti√ß√£o que adverte sobre a ‚Äúdete¬≠ri¬≠o¬≠ra√ß√£o na qual¬≠i¬≠dade de vida‚ÄĚ das pes¬≠soas com estas difi¬≠cul¬≠dades. No tex¬≠to, solici¬≠ta uma ade¬≠qua√ß√£o das nor¬≠mas, j√° que as m√°s¬≠caras se tornaram obri¬≠gat√≥rias em Buenos Aires e nos espa√ßos fecha¬≠dos em v√°rias regi√Ķes do pa√≠s.

Na Argenti­na, cer­ca de um mil­hão de pes­soas têm defi­ciên­cia audi­ti­va per­ma­nente.

Para muitos, a solução são as más­caras com transparên­cia.

√Č o caso da estu¬≠dante de libras Mariel Cin¬≠golani, de 22 anos, que apren¬≠deu a usar a m√°quina de cos¬≠tu¬≠ra por meio de tuto¬≠ri¬≠ais do YouTube. √Ä ven¬≠da on-line, suas m√°s¬≠caras chegaram ao Depar¬≠ta¬≠men¬≠to de Fonoau¬≠di¬≠olo¬≠gia de um hos¬≠pi¬≠tal p√ļbli¬≠co porten¬≠ho, con¬≠ta ela orgul¬≠hosa.

mps-mls/g­ma/ltl/tt / Por: AFP

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