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São Paulo enfrenta surto de hepatite A

 

O surto de hepatite A na cidade de São Paulo – onde a quantidade de casos saltou 773% nos nove primeiros meses de 2017 na comparação com o mesmo período do ano passado – tem assustado moradores da cidade. Um dos problemas é o desconhecimento de muita gente sobre transmissão e tratamento da doença.

Cayke Nascimento, de 22 anos, por exemplo, ficou surpreso quando recebeu o diagnóstico de hepatite A em setembro.

“No começo, achei que fosse virose ou gastrite porque senti dores abdominais muito fortes. Mas comecei a ter diarreia, mal-estar, tontura, fadiga e ânsia de vômito. A urina também saiu com uma cor amarela muito escura. Fui ao médico, preocupado, mas nunca imaginei. Assim que peguei o resultado, o doutor avisou: hepatite A”.

A doença

A hepatite A, na maioria das vezes, não tem sintomas. É uma doença infecciosa que causa inflamação no fígado e, por isso, traz mal-estar à pessoa. Geralmente evolui para cura espontânea em mais de 90% dos casos. Outras vezes, exige a internação do paciente.

Sua transmissão é pela ingestão de água ou alimento contaminado pelo vírus presente nas fezes de pessoas infectadas. Esse vírus pode sobreviver por até quatro horas na pele das mãos e dos dedos.

O risco é que, durante o período de incubação, que leva em média de duas a seis semanas, os sintomas não se manifestam. Desse modo, a doença pode ser transmitida via contato sexual, principalmente oral e anal, mas também pela ingestão de alimentos manuseados por pessoas infectadas.

Alcance

Enquanto em São Paulo os casos saltaram de 64 de janeiro a setembro de 2016 para 559 no mesmo período deste ano (aumento de 773%), na Baixada Santista há ao menos 103 confirmações de hepatite A nos nove primeiros meses de 2017. Os dados excluem Praia Grande, que não enviou seus números à Reportagem. Ano passado foram 229 notificações.

Diante disso, o médico infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Leonardo Weissmann indica medidas de controle que podem prevenir a doença.

“Vacinação; lavar as mãos após ir ao banheiro, trocar fraldas, antes de comer ou de manusear alimentos; tomar água filtrada e de fonte confiável; lavar bem os alimentos consumidos crus; e cozinhar bem os frutos do mar. Na vida sexual, usar preservativo em qualquer relação, incluindo o sexo oral, e lavar as mãos e as regiões genital e anal antes e após a relação”.

Tratamento

Cuidar da hepatite A é simples e requer repouso absoluto, pois o corpo se recupera da doença sozinho em um ou dois meses. Em casos mais severos, porém, pode demorar seis meses para o vírus ser eliminado. E, uma vez com ele, a imunidade fica para o resto da vida. Para sorte de Cayke, mais tranquilo depois do susto e das orientações do médico. “Em duas semanas melhorei”.

Vacinas

Além das precauções de higiene, as vacinas são a arma mais importante quando o assunto é a prevenção contra hepatites. Neste ano, foi ampliado o público-alvo da vacinação contra a doença, gratuita para crianças. Adultos devem se imunizar em clínicas particulares.

Crianças com até cinco anos podem ser protegidas no Sistema Único de Saúde (SUS). Antes, a idade máxima era 2 anos.

Em países que adotaram o esquema de vacinação com uma dose contra a hepatite A, houve controle da incidência principalmente em creches, proporcionando proteção à população geral.

De acordo com o Ministério da Saúde, estudos também têm demonstrado que, em 95% dos vacinados, há produção de anticorpos em níveis protetores quatro semanas após a primeira dose. As vacinas são oferecidas em qualquer Unidade Básica de Saúde.

De acordo com o médico infectologista assistente-doutor da Divisão de Moléstias Infecto contagiosas do Hospital das Clínicas de São Paulo, Evaldo Stanislau, a recomendação é para que não só os pais vacinem as crianças, mas também adultos procurem proteção, principalmente os que têm alguma outra doença crônica.

“Porque a hepatite A, apesar de controlada, pode levar sim à morte por insuficiência hepática, em menos de 1% dos casos. Na Baixada, os números de casos são pouco relevantes, pois nem sempre os médicos lembram de notificar. E esse ano tivemos casos graves. Eu cuidei de um paciente em Santos que quase precisou de transplante”.

Tipos B e C

Apesar de mais comentada agora, não é a hepatite A que preocupa mais. Os tipos B e C apresentam maior risco aos pacientes porque têm mais chances de se tornarem doenças crônicas, causando cirrose e câncer. E um mito precisa cair: o tipo A não evolui para B ou C.

“A evolução de doença hepatite A não existe. Cada tipo de hepatite é causado por um vírus. São doenças diferentes cujo resultado final é a inflamação do fígado. Isso é o que elas têm em comum”, explica o hepatologista gastroenterologista e professor da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Elson Vidal Martins Júnior.

A hepatite A é uma doença normalmente benigna. Só em 0,1% dos casos ocorre a hepatite fulminante, que exige internação imediata. Já nas outras, a diferença da B para a C é que esta última tem maior chance de ficar crônica.

“Essa taxa varia de 5 a 10% na hepatite B. Na C, o risco de a doença ficar crônica é de 60 a 70% e pessoas infectadas que ficam com a doença têm comprometimento no fígado e risco de evolução para cirrose ou câncer”.

Segundo Elson Júnior, portadores de hepatite crônica veem crescer em até 30% a chance de desenvolvimento de cirrose que um indivíduo normal. Por isso é tão importante o adulto pedir o exame ao médico, pois nos tipos B e C não há sintomas. Estão no grupo de maior risco pessoas que utilizaram injetáveis, receberam sangue antes de 1992 ou têm número alto de parceiros sexuais.

 

Foto: Reprodução

Fonte: ATribuna / IG

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