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Centro Cultural Correios recebe exposição do fotógrafo Alberto de Sampaio

Muito antes das funcionalidades do Instagram darem aquela mãozinha aos fotógrafos amadores, eles só tinham uma chance de fazer a foto perfeita. E foi assim, estudando meticulosamente os elementos e a iluminação de cada ambiente, que o advogado Alberto de Sampaio (1870-1931) começou a fazer cliques certeiros da própria vida familiar e de cenas urbanas de sua cidade, o Rio de Janeiro do início do século XX. Depois de levar cerca de 70 mil pessoas ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e mais de 24 mil pessoas à Baixada Santista (Parque Novo Anilinas), este raro acervo estará em exibição pela primeira vez na capital fluminense, no Centro Cultural Correios, a partir do dia 6 de outubro.

O trabalho de Alberto de Sampaio foi descoberto pela arquiteta e historiadora Adriana Martins Pereira, curadora da exposição. Em 1999, na Sociedade Petropolitana de Fotografia (Sopef), na cidade de Petrópolis (RJ), ela se deparou com o grande volume de negativos e materiais de laboratório desse ilustre, e até então desconhecido, fotógrafo amador que havia sido doado para a instituição nos anos 1980. Ao pesquisar sobre Sampaio, Adriana teve contato com um acervo ainda maior de imagens, objetos e histórias tão ricas, que lhe renderam um mestrado e um doutorado sobre o tema. O trabalho de Alberto de Sampaio, então, se tornou o mote para que a pesquisadora explorasse diversos aspectos da história do Brasil e da história da fotografia amadora, muito estudada na Europa mas pouco investigada e divulgada por aqui.  

Alberto de Sampaio e a fotografia amadora

Por mais de quarenta anos, Sampaio, que era advogado, registrou como hobby a própria família, a natureza e as cenas urbanas de sua cidade natal, criando uma memória visual única e surpreendente da capital fluminense do início do século XX. Seus experimentos em fotografia começaram no próprio ambiente doméstico por volta do ano 1888. Diante deste desafio técnico e estético, ele utilizava os recursos da própria casa para produzir uma boa iluminação ao, por exemplo, posicionar os elementos perto de uma janela por onde entrava luz solar, ou ao usar um livro aberto em frente ao rosto do retratado como um rebatedor de luz.

Além disso, para não desperdiçar o clique (e o caro material que os negativos exigiam), cada cena era cuidadosamente planejada por dias e encenada pelos personagens para simular uma situação espontânea. O método, no entanto, não impedia o fotógrafo de adicionar pitadas de humor às imagens, que podem ter sido influência das comédias cinematográficas da época.   No final da década de 1890, a chegada da Kodak promoveu a massificação da fotografia e transformou o olhar de fotógrafos amadores em todo o mundo. A empresa comercializou câmeras por um dólar nos Estados Unidos. Sampaio, incentivado pela nova facilidade em transportar a câmera, passou a percorrer o Rio de Janeiro e registrou por décadas diversas cenas das transformações urbanas e das paisagens naturais da então capital do país.

No fim da vida, este pioneiro da fotografia amadora ainda flertou com o cinema e, entre 1927 e 1930, rodou filmes em uma câmera 16mm que revelam de cenas cotidianas nas ruas até fatos marcantes, como a chegada do zepelim Graf aos céus cariocas um ano antes de sua morte.   Os trabalhos de fotógrafos amadores como Alberto Sampaio – cujo acervo permaneceu por quase cem anos guardado por seus descendentes – por sua natureza privada, têm pouca visibilidade e acabam, muitas vezes, se perdendo. Trata-se, no entanto, de uma fonte riquíssima de conhecimento sobre diversos aspectos históricos, sociais e culturais de uma época, e que ajudam a entender, por exemplo, o movimento dos fotógrafos amadores dentro e fora do Brasil e os conflitos que haviam entre esses personagens.

Conhecer o trabalho de Alberto de Sampaio, portanto, é experimentar uma viagem singular ao passado de uma das cidades mais belas do mundo e a um tempo em que começava-se a descobrir as possibilidades advindas de uma câmera na mão.  

A mostra Lentes da memória

A descoberta da fotografia de Alberto de Sampaio vai exibir, no prédio histórico do Centro Cultural Correios, objetos pessoais, materiais de laboratório, filmes em 16mm e cerca de 130 imagens da vida doméstica do fotógrafo e de cenas marcantes do processo de urbanização do Rio de Janeiro. Dividia em três núcleos, a exposição começa com uma seção intitulada A Casa do Amador, que traz fotos de família produzidas por ele no ambiente doméstico, além de vitrines com documentos e objetos, como a cadeira de balanço que aparece em uma das imagens.

Avenida Rio Branco, com Hotel Avenida à direita | Centro do Rio de Janeiro | Legenda Atribuída | Negativo de vidro, 4,5 cm x 6 cm | A imagem é de cerca de 1915.

Avenida Rio Branco, com Hotel Avenida à direita | Centro do Rio de Janeiro | Legenda Atribuída | Negativo de vidro, 4,5 cm x 6 cm | A imagem é de cerca de 1915.

Na segunda parte, foram reunidas fotografias que retratam cenas urbanas do Rio, como a inauguração da Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco) em 1905, a demolição do Morro do Castelo em 1921, e até um eclipse ocorrido em 1907 e fotografado do Observatório do Morro do Castelo (Alberto de Sampaio foi o único fotógrafo a registrar esse evento). Uma novidade em relação à mostra do Instituto Tomie Ohtake é a exibição de duas fotos do Morro do Castelo feitas por Sampaio em estereoscopia, processo que dá a impressão de relevo e permite enxergar a cena em 3D.

Ipanema | Legenda original | Praia do Arpoador com pedra à direita, já destruída | Negativo de vidro, 8 cm x 11 cm | A imagem é de cerca de 1910.

Ipanema | Legenda original | Praia do Arpoador com pedra à direita, já destruída | Negativo de vidro, 8 cm x 11 cm | A imagem é de cerca de 1910.

O terceiro núcleo apresenta fotografias de paisagens naturais da capital fluminense que mostram, por exemplo, as praias da zona sul praticamente desertas de banhistas e com pescadores em ação por volta do ano 1905, o Morro do Corcovado, Morro do Cantagalo, o Morro do Pão de Açúcar, a Pedra do Arpoador e o Morro Dois Irmãos.

Fotografia tátil | por meio de impressão em 3D, a exposição permite que pessoas com deficiência visual (total ou parcial) acompanhem a trajetória de Alberto de Sampaio e compreendam seus registros com auxílio de audiodescrição.

Fotografia tátil | por meio de impressão em 3D, a exposição permite que pessoas com deficiência visual (total ou parcial) acompanhem a trajetória de Alberto de Sampaio e compreendam seus registros com auxílio de audiodescrição.

O quarto e último núcleo apresenta o laboratório de fotografia completo de Alberto de Sampaio, com materiais usados para a revelação e produção de imagens há mais de 100 anos. São luminária para laboratório a querosene, tabelas para fotometragem, objetos para preparação das químicas, papéis fotográficos ainda fechados e em envelopes originais, câmeras de fotografia, projetor e câmera de filmar em 16 mm. A mostra reúne, portanto, retratos da esfera privada de um brasileiro anônimo que, por meio e por causa da fotografia amadora, dialogam com cenas públicas e cruciais no desenvolvimento urbano na virada do século XX. Na ocasião da abertura também será lançado, pela editora Bazar do Tempo, livro escrito pela curadora que conta a história de Alberto de Sampaio e suas fotos  

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Capa do livro Lentes da memória – A descoberta da fotografia de Alberto de Sampaio (1888-1930)”, da Editora Bazar do Tempo, e autoria da historiadora Adriana Martins Pereira.

 

Lentes da memória: a descoberta da fotografia de Alberto de Sampaio

Período: 6 de outubro a 4 de dezembro | terça a domingo, 12h às 19h | Grátis

Local: Centro Cultural Correios Rio de Janeiro Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro

| Contato: (21) 2253-1580  

saiba antes via instagram @maisinfluenterevista