PUBLICIDADE

6.0 - ESTILO DE VIDAarte & cultura

Moonlight: um poema universal sobre a minoria da minoria

 

Com um clima pol√≠tico acentuado, n√£o √© surpresa o fato de que quando os filmes indicados ao Oscar 2017 foram anunciados, muitas das opini√Ķes n√£o se tratavam diretamente da qualidade das produ√ß√Ķes, mas do que elas representam na sociedade.

Quando¬†Moonlight: Sob a luz do luar, do diretor Barry Jenkins, foi indicado ao Oscar, muitos viram potencial para que filmes de Afro-Americanos sejam ganhadores do pr√™mio mais cobi√ßado da Academia. No entanto, tais quest√Ķes, sendo importantes ou n√£o, muitas vezes podem esconder a qualidade e m√©rito de uma produ√ß√£o que, por si s√≥, revela aspectos da vida de pessoas que fazem parte de uma minoria, mas que sofrem e anseiam por algo que todos queremos: o afeto humano. ¬†¬†

Este √© o caso de¬†Moonlight, que pode se afogar no mar agitado da pol√™mica e controv√©rsia. Claro, que o filme n√£o √© para todos. Para come√ßar, a sua tem√°tica √© adulta. Diferentemente de¬†La La Land, que possui o tom de esperan√ßa de um musical,¬†Moonlight¬†funciona como um belo poema em tr√™s versos, que mostram a ang√ļstia de Chiron (interpretado por Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes), desde a inf√Ęncia at√© a vida adulta. Por√©m, durante todo o tempo, a confus√£o e constrangimento por ser homossexual e a constante falta de afeto que sente nunca cessam.

Em cada etapa da hist√≥ria √© dado um t√≠tulo referente ao nome que mais representa o protagonista nos diferentes momentos de sua vida. Assim, a primeira parte √© intitulada ‚ÄúLittle‚ÄĚ (Pequeno). Aqui, conhecemos Chiron, uma crian√ßa envergonhada e introvertida, que sofre bullying em um bairro pobre de Miami. Neste momento, tamb√©m √© apresentado Juan (Mahershala Ali), um traficante de drogas que acolhe e protege Chiron e se torna uma figura paterna para ele. O contraste entre um garoto t√≠mido em um mundo violento, assim como entre um criminoso perigoso e sua personalidade carinhosa em rela√ß√£o ao menino, faz parte do pano de fundo de¬†Moonlight, filme que mostra um mundo cheio de contradi√ß√Ķes onde n√£o √© f√°cil seguir um caminho claro e certo. Afinal, Chiron n√£o possui a ajuda da m√£e, que √© viciada em crack e n√£o consegue cri√°-lo. Por outro lado, o personagem conta com a amizade de Kevin (Jaden Piner), um jovem da mesma idade dele, mas com um perfil mais corajoso.

A segunda parte do filme √© intitulada ‚ÄúChiron‚ÄĚ, representando o momento em que o rapaz come√ßa a entender sua realidade, assim como a si mesmo. Ele continua sofrendo com o bullying e as coisas come√ßam a piorar, pois sua m√£e, que precisa da ajuda do adolescente para sobreviver, permanece viciada em crack. √Č nesta etapa tamb√©m que Juan, sua figura paterna, morre. E a partir da√≠ Chiron come√ßa a descobrir sua sexualidade ao lado de Kevin, seu amigo de inf√Ęncia.¬†Por√©m, qualquer tentativa de entender qual seu papel no mundo √© destru√≠da momentos depois, quando Kevin, pressionado pelos bullies, agride Chiron para a divers√£o dos outros.

A parte final do filme √© intitulada ‚ÄúBlack‚ÄĚ (Negro), quando o protagonista j√° est√° adulto e o oposto do que muitos imaginavam. Chiron se torna o estere√≥tipo de seu bairro. Ele √© um forte traficante de drogas e o passado parece completamente apagado, at√© receber um telefonema de Kevin (agora interpretado por Andr√© Holland), que o faz reviver muitas lembran√ßas da adolesc√™ncia. Quando eles se reencontram, √© dif√≠cil saber o que prevalecer√°, a viol√™ncia ou a amizade. Afinal, Chiron foi humilhado na etapa mais dif√≠cil de sua vida. Por√©m, Barry Jenkins nos da um momento tenro entre dois amigos, que enfrentaram mais do que outros adolescentes podiam aguentar.

O filme √© marcado pelo uso de contradi√ß√Ķes, que mostram como √© imposs√≠vel caracterizar uma pessoa de maneira simplificada. A escolha da fotografia e da trilha sonora est√° de acordo com tal narrativa. Enquanto a atua√ß√£o √© realista, as cenas possuem cores vibrantes e fortes. O hip hop e R&B fazem parte da vida do protagonista e m√ļsicas cl√°ssicas s√£o intercaladas de forma inesperada. At√© mesmo o estilo do filme, que lembra muito¬†In the Mood for Love¬†(produ√ß√£o asi√°tica dirigida por Wong Kar-Wai) por conta da paleta e uso de slow motion, contrasta fortemente com o que √© esperado do g√™nero. O resultado √© um verdadeiro poema, onde cada uma das partes est√° em conflito e harmonia.

Barry Jenkins foi indicado como melhor diretor pelo filme n√£o somente para o Oscar, como tamb√©m para o Golden Globes e Director‚Äôs Guild of America. Ganhando pr√™mios ou n√£o, fazendo parte da voz de um grupo ou de outro,¬†Moonlight: Sob a luz da escurid√£o¬†conquista o que poucos t√™m realizado nos √ļltimos anos: mostrar personagens complexos e contradit√≥rios em uma hist√≥ria muito espec√≠fica. Jenkins, que colocou muito de sua pr√≥pria vida no filme, consegue indicar que em qualquer lugar, sociedade e cultura, independente das prefer√™ncias e gostos, todos s√£o seres humanos complexos em busca de amor.

Texto escrito por: Daniel Bydlowski √© cineasta brasileiro com Master in fine Arts pela University of Southern of California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. √Č membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da ind√ļstria cinematogr√°fica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Atualmente, est√° produzindo Nano √Čden, primeiro longa em realidade virtual em 3D.¬†

Foto: Reprodução

PUBLICIDADE