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The Killers lança novo disco após 5 anos

 

Brandon Flowers, vocalista e compositor da banda The Killers, titubeou ao ser perguntado sobre as negociações com o Lollapalooza Brasil. Na época da entrevista, ele ainda não estava autorizado a falar sobre o festival do qual o grupo de Las Vegas foi uma das principais atrações em 2013, mas, nesta quarta-feira, tornou-se oficial: eles estão de volta como headliners da sétima edição do evento, a ser realizada entre os dias 23 e 25 de março do ano que vem, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, ao lado dos compatriotas do Pearl Jam e do Red Hot Chili Peppers. E os Killers não vêm de mãos abanando: na última sexta-feira, a banda lançou “Wonderful wonderful”, seu quinto álbum de estúdio, o primeiro trabalho em cinco anos — o maior hiato, até hoje.

— Este disco fala muito sobre como olhamos para nosso passado. Hoje, eu tenho 36 anos e o Killers tem 16, então estas canções falam sobre como eu e a banda chegamos até aqui e o que aconteceu no meio do caminho — explica o músico, que aproveitou o intervalo entre o questionado “Battle born” (2012) e “Wonderful wonderful” para lançar seu segundo trabalho solo, o pop “The desired effect” (2015) — Eu explorei um lado muito sensível meu em “Desired effect”, em músicas como “Between me and you” e “Still want you”, e acho que isso me deu permissão para escrever “Rut”, “Some kind of love” e “Wonderful wonderful” (faixas do novo disco) para o Killers. Foi como abrir a porta para o que estava por vir.

Um dos poucos grupos de rock deste século a conseguir fazer grandes turnês mundiais por estádios e fechar festivais, o Killers é, também, a banda mais bem-sucedida a sair do estado de Nevada, com mais de 22 milhões de discos vendidos graças a hits grandiosos que romperam a barreira de alcance do indie, como “Somebody told me”, “Mr. Brightside”, ambas de seu álbum de estreia, “Hot fuss” (2004), e “When we are young”, de “Sam’s town” (2006).

Ao decidir voltar ao estúdio para um novo álbum, o quarteto se perguntou: “como uma banda de rock deveria soar em 2017?”. Para tentar chegar a uma solução, convocaram o produtor Jacknife Lee, seguindo uma recomendação de Bono, do U2 — Lee foi o produtor de “How to dismantle an atomic bomb” (2004), 11º disco de estúdio do U2.

— Ele (Lee) tem uma energia inesgotável e acredita no rock’n’roll. Essa combinação de características é muito poderosa, e era disso que precisávamos. Se conseguimos a resposta para aquela pergunta? (risos) Não sei, mas demos nosso melhor lance — garante Flowers.

Lançado em julho, “The man”, primeiro single do trabalho, surpreendeu e dividiu os fãs da banda. A pegada disco-rock funkeada a partir de um sample de “Spirit of the boogie”, do Kool & The Gang, fez a ala mais conservadora temer por um álbum de veia dançante, mas logo veio “Run for cover” para provar que o grupo não estava preparado para trocar os estádios e arenas pelos clubs.

— Realmente, musicalmente, “The man” não tem pares no álbum, mas faz sentido no conceito como um todo. Nela, eu brinco sobre a questão da masculinidade e como ela pode soar juvenil — explica.

Em “Tyson vs Douglas”, uma faixa que lembra o Killers dos tempos de “Sam’s town”, a abertura traz a narração da histórica luta de boxe em que Buster Douglas nocauteou Mike Tyson, em 1990, diante de 40 mil pessoas no Japão, naquela que é considerada, até hoje, a maior zebra de todos os tempos no esporte. Tal lembrança ainda atormenta o vocalista:

— Eu tinha 9 anos quando aquilo aconteceu. Até então, Mike Tyson era o símbolo do atleta perfeito, e então perde para um azarão. Aquilo mudou a maneira como eu via o mundo. Agora, eu tenho três filhos e um deles tem a mesma idade que eu tinha naquela época. E, para eles, eu sou tão perfeito quanto Tyson era para mim. Eu não quero decepcioná-los e, por isso, eu não posso ir para a lona. É o que eu tento resumir na canção.

“Nós não vamos decepcioná-los” foi, também, a promessa feita por Flowers e pelo carismático baterista e cofundador do grupo, Ronnie Vanucci Jr. ao encerrar, em agosto, uma nota oficial em que confirmavam que eles seriam os únicos titulares da banda a embarcar na turnê de “Wonderful wonderful”. O guitarrista Dave Keuning e o baixista Mark Stoermer seguem membros ativos da banda no estúdio, mas resolveram tirar um período sabático da estrada. Além da dupla Flowers-Vanucci Jr., o Killers que virá ao Brasil, em março, terá outros oito músicos, incluindo três backing vocals — novidade para esta turnê, que terá início oficial semana que vem, nos Estados Unidos, após alguns elogiados shows de aquecimento baseados, principalmente, em seu repertório antigo.

Análise

Depois de cinco anos sem gravar algo novo, a expectativa pelo próximo álbum do The Killers era grande, ainda mais após “The Desired Effect”, excelente disco solo do vocalista Brandon Flowers . Porém, o que se ouve não é nada disso.

The Killers está de volta com novo álbum, mas não consegue encontrar o som do passado

“ Wonderful Wonderful ” parece uma versão genérica do que o The Killers já foi. Uma música ou outra pode até funcionar ao vivo ou na pista de dança, mas no geral as músicas são esquecíveis. Em alguns momentos mais inspirados, fica claro que o The Killers ouviu seus trabalhos antigos e de mais sucesso para construir o novo. É possível perceber traços de “ Runaways ” e “ Human ” em algumas faixas, mas nada comparado a poderosas músicas como “ Read My Mind ” ou “ All This Things That I’ve Done ”.

Aliás, são várias as referências do novo disco . Uma mais óbvia, que fica clara logo na primeira faixa é o U2 , banda que o The Killers já declarou seu amor diversas vezes. O problema é que eles usaram como inspiração os trabalhos mais fracos do U2, como “Pop” ou o mais recente “Songs of Innocence” que tem uma sonoridade difícil de reconhecer e de agradar.

Nesse mar de referência, “Wonderful Wonderful” acaba não tendo uma identidade própria. Talvez isso seja refletido nas recentes mudanças na banda. O guitarrista Dave Keuning e o baixista Mark Stoermer deixaram recentemente o The Killers, mesmo participando do processo de criação do álbum.  Stoermer anunciou que não excursionaria com a banda quando o álbum ainda estava sendo gravado. Já Keuning chegou a falar em entrevistas que não se envolveu no processo de finalização do disco. Seja lá qual tenha sido o conflito interno enfrentado pelo grupo, refletiu no conflito externo exposto no novo disco.

Parte boa

Verdade seja dita, “Wonderful Wonderful” melhora na segunda metade e ganha algo próximo a uma identidade própria. Continua não sendo o melhor trabalho do The Killers , mas é mais inspirado, com destaque para “The Calling” que conta com uma agradável e surpreendente participação do ator Woody Harrelson . “Tyson vs Douglas” e Life to Come” também são bons exemplos em um disco basicamente esquecível.

 

Foto: Reprodução

Fonte: OGlobo/IGGente/24horasnews

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