6.1 // denise prado

“Pai Pãe”

“Êh, Mãe, não sou mais menino,

Não é justo que também queira parir meu destino,
Você já fez a sua parte, me pondo no mundo,
Que agora é meu dono, mãe, e nos seus planos não está você…” (Erasmo Carlos)

Em pleno mês onde se comemora o Dia das Mães, me pego pensando nessa música e percebo o quão absolutamente verdadeira é essa letra. Quando me dei conta o meu menino estava indo morar sozinho, tinha escolhido ficar em São Paulo e tinha virado um Homem. Com o tempo percebi que ele, através das suas atitudes reservadas, estava me dizendo: “Agora é comigo”. Foi difícil me entender em mim, administrar as dúvidas que vinham recheadas de culpa e ao mesmo tempo de orgulho.

Como Mãe/Mulher venho observando a partir das atitudes comprometidas e amorosas do meu filho, uma renovação, uma releitura do que significa a paternidade. Homens que hoje se colocam a disposição de suas crias colocando-as em primeiro plano, seja na guarda compartilhada, na escolha de morar com a criança assumindo o dia a dia dela, na opção de ficar em casa cuidando da criança e da casa (seja em que circunstancia for) enquanto a mulher sai para trabalhar ou mesmo assumindo a liberdade de estar com a criança quando ela quiser, não tendo uma regra especifica, priorizando o desejo da criança.

O que antes era impossível imaginar, pois era o papel da mulher, as tarefas com as crianças. Me lembro que mesmo minha mãe trabalhando oito horas por dia, quando chegava em casa tinha que se ocupar de nós. Não tinha o mesmo diretito do meu pai, de entrar em casa, tomar um banho e simplesmente ficar vendo a TV. Minha mãe tinha que administrar o nosso dia que havia passado e ainda pensar no dia seguinte.

Nos dias de hoje, as tarefas já são compartilhadas, claro, que ainda estamos avançando nesse sentido, mas a geração do meu filho e até alguns homens da minha geração optaram por mudar esse rumo e vem competentemente vivenciando essa experiência. E mesmo sendo um mês dedicado às mães, venho prestar a minha homenagem a esses homens “pães”.

Ricardo, 48 anos, empresário do ramo de confecção de roupas feminina, há quase 30 anos, tem dois filhos que moram com ele, Ricardo de 10 anos e Isabela de 16 anos e ele conta: “Fui casado por quase 14 anos e aí veio o divórcio. As crianças ficaram com a mãe, durante o primeiro ano de separação elas queriam ficar comigo e não com a mãe, e eu entrei com um processo pedindo a guarda deles. No ano em que o processo caminhava, as crianças ficavam uma semana comigo e uma semana com a mãe. No inicio da separação as crianças moravam com a mãe e eu as pegava nos fins de semana. Primeiro ano com a mãe, segundo ano semana comigo e semana com ela e no terceiro ano eu ganhei a guarda deles, e eles veem a mãe de 15 em 15 dias. No começo foi uma loucura, mudou a vida da gente, é escola, lição de casa, roupas, festinhas, comida, mas agora que faz um ano e meio que eles estão comigo, a vida vai entrando no eixo, e é muito bom estar com eles, apesar da correria que não para. Até a hora de eles dormirem eu estou correndo fazendo uma coisa ou outra, mas é bom demais, o amor que eu tenho por eles é muito grande e o que eles têm por mim também. Final de semana tem as festinhas de amigos, levar e buscar, mas a vida está bem encaminhada, eles estão felizes de estarem aqui comigo, sempre conversamos muito. Esqueci a minha vida pessoal, esqueci não, deixei de lado nesse primeiro momento porque eles são a prioridade. Desde a separação, eu não tive nenhum relacionamento duradouro a ponto de trazer em casa e apresentar para os meus filhos, mas conversamos muito e trato com naturalidade que isso possa acontecer um dia.  Em relação a Isabela que é adolescente, conversamos sobre ela ter um namorado,mas ela ainda é muito tranquila, caseira e eu percebo que em uma conversa mais intima ela recorre a mãe.  Eu fico muito feliz com eles aqui e vamos vivendo a vida com muito amor.”

 

Eduardo Souto, Pernambucano, 32 anos, casado e pai de Olívia é Produtor de Eventos e trabalha como freelancer, por isso em algumas ocasiões assume totalmente a casa e os cuidados com a pequena Olívia de 1 ano e 2 meses. Duka, como é carinhosamente chamado, também adora tocar um violão e juntar gente para cantar em volta das suas criações gastronômicas. Pergunto como ele se define e como se sente nessa inversão de papel determinada pela sociedade em que o homem trabalha fora e mulher trabalha dentro, mesmo quando trabalha fora? “O mercado na minha área deu uma baixa e minha esposa, também produtora de eventos, conseguiu um emprego fixo. Fiquei eu, para cuidar de nossas filhas, a Olívia e a nossa cadelinha Suspiro.. Nossa rotina é acordar junto com a mamãe, trocar a fralda toda molhada da noite, para podermos tomar café da manhã. Comemos tapiocas, frutas e/ou panqueca de banana com aveia, geralmente para começarmos o dia. O Segundo passo é sairmos para passear, com a Suspiro, nesse momento, Olívia, adora segurar na coleira enquanto passeamos na segurança do canguru, espécie de suporte para carregar bebês. Voltamos e brincamos um pouco, tomamos um banho e ela tira um cochilo até a hora do almoço. Quando ela acorda, chega a hora melhor do dia. Ela se lambuza com as beterrabas e brócolis, dentre os outros vegetais que ela adora, nossa refeições são uma festa. Ela vai pra escola depois de alimentada, e passa as tardes nas atividade interativas de lá. No fim da tarde vou buscá-la. Começa tudo de novo. Digo que esta experiência que passo agora, é muito mais que gratificante, não há adjetivo no mundo que retrate com tanta verdade o que sinto, o que ganho e o que me torno, com ela. Ser Pãe( pai+mãe), ser Paba (pai+babá) é ser isso mesmo. Criamos um laço, estreito e sem tamanho ao mesmo tempo. Uma coisa que só quem vive, ou viveu, sabe do que estou falando. Minha vida mudou. Minhas prioridades mudaram. Meu mundo mudou. Sou outro ser hoje, diferente do de ontem e do de amanhã. Não sei como explicar isto. Sempre tive o sonho de ser pai. De poder compor um poema musicado para minha cria. Este sonho realizou-se. Hoje toco meus instrumentos musicais com Lili. Ela ama música e eu a amo. Tem uma música que fiz pra ela”.

O poema é o seguinte:                

 Ela é pequena 

 cheia de charme
o sorriso dela 

 me derrete inteiro

 e o meu mundo para 

 se ela manda um beijo

 ou quando ela dança 

 levantando o dedo

 ou quando levanta 

 esquecendo o medo

 desequilibrando 

 caindo sentada

 é minha menina

 minha criança

 é minha menina

 quando ela dança 

 levantando o dedo

 esquecendo medo 

 sacudindo a alma

 se ela manda um beijo

 o meu mundo para.

 

O Pãe Marco Aurélio de Sousa é Diretor de Projetos na área de tecnologia para a América latina, tem 45 anos e é pai da Manuela de 6 anos. Ele e a mãe da Manuela,  optaram por um caminho mais livre onde a prioridade de com quem ela vai estar, é resolvida pela própria Manuela, e o Marco vai nos falar sobre essa experiência: “A separação ocorreu há 3 anos e foi muito tranquila sem brigas e na verdade ela sempre teve como prioridade o bem estar total da nossa filha. Nós não estabelecemos uma guarda compartilhada, mas geralmente eu fico com ela de três a quatro dias na semana. Como a gente mora perto, isso facilita muito, atualmente eu ainda consigo levar a Manuela quase todos os dias na escola, o que me da a oportunidade de conviver ainda mais com ela. Nós tentamos sempre respeitar a vontade dela, em estar com um ou com outro, normalmente ligamos um para o outro para saber a nossa disponibilidade de estar com ela e sempre que é possível e atendemos o pedido dela. Minha filha tem seu quarto em cada casa, mas desde os dois anos de idade que a acostumamos a dormir na cama do casal e esse costume dura até hoje, temos a consciência que temos que mudar isso muito em breve. Eu a coloco como prioridade em tudo o que eu faço, aqui na minha casa tenho um ambiente muito calmo e não sou muito de ficar brigando dando broncas, nem nada, costumo brincar com ela e ficar atento a tudo. Geralmente ela me atende, ela é a minha parceirinha de vida, gostamos de passear e viajamos muito, gosto de cozinhar, faço a comidinha dela e fico feliz quando ela diz que adora a minha comida e que eu deveria abrir um restaurante. Quanto a outros relacionamentos, eu a mãe dela estabelecemos um acordo de que só iríamos apresentar alguém quando a gente tivesse uma maior segurança no relacionamento, para evitar que ela sofra caso haja outra separação. A criança acaba se apegando e cada separação causa um sofrimento.Eu cheguei a namorar uma vez por seis meses, mas a minha filha nem conheceu a pessoa e conseguimos administrar bem porque tive a ajuda da mãe dela. Em resumo, o que eu sempre ouço e parece, na verdade, que somos ETs, por termos uma boa relação, pós casamento. Já recebemos diversos elogios, por ter essa relação e pelo cuidado que temos com a Manuela. Claro que ela sente falta do papai e da mamãe juntos, mas conversamos muito e ela entende tudo. Ela é o nosso presente de Deus”.

Confesso que me emocionei muito com esses “paipães” e que desejo que eles continuem nas suas jornadas e sejam os Mais Influentes para muitos homens, permitindo assim o nascer de uma nova geração de Papais Pães ou Pabás felizes.

saiba antes via instagram @maisinfluenterevista