6.1 // denise prado

Cadê a ficção?

Fiquei quase dois anos sem ver TV, minha telinha era uma janela que tinha vista para o mar, onde eu deliciosamente sentada na minha rede vislumbrava os navios que chegavam e partiam no verão, ou a névoa que cobria misteriosamente o horizonte.  Foi o momento mais produtivo e criativo da minha vida, foi quando escrevi a peça teatral Mulher de 50 pode… e senti o despertar de um talento adormecido.

Quando voltei para o Brasil, ainda me dei de presente ficar por mais um bom tempo sem ver TV, mas um belo dia ela voltou e devagar fomos nos reencontrando.

Atualmente tenho visto algumas séries Brasileiras e de vez em quando passeio pelas novelas. É inegável o talento e a competência que temos para a dramaturgia, com seus autores, diretores e atores que emprestam sua vida aos personagens que entram em nossa casa seja para nos distrair, ou seja, para afirmar a dura realidade que estamos vivendo.  Não sei se gosto desse formato de reproduzir na novela o que a mídia já propaga em exaustão através de seu jornalismo sensacionalista ou em programas que passam durante a tarde.

Cadê a ficção? Cadê a ilusão?

Será que os autores estão vivendo uma crise de criatividade e por isso só conseguem se basear em fatos reais? Será que precisamos mesmo usar a novela para mostrar como é essa vida tão dura e feia? Mas resolvi olhar por outro ângulo.  Assistindo a novela A Força do Querer, chorei copiosamente com a sensível interpretação da atriz Carol Duarte (Ivana) em uma cena emocionante com a mãe Joyce interpretada pela maravilhosa Maria Fernanda Candido.

Uma cena onde delicadamente as duas mostram seus pontos de vistas. Fiquei assistindo aquela cena e tentando me imaginar no lugar da mãe, sem julgar seu comportamento, apenas tentando me colocar ali no lugar dela. Há pouco tempo vivenciei de perto um momento assim, a transição de um trans, e descobri um amor incondicional que nem sabia que existia dentro de mim. Despi-me de tudo e ao invés de olhar, enxerguei, me aprofundei no amor, pois o conheci  ainda pequeno. Fui entendendo que é um renascimento na mesma vida, uma escolha que não é fácil prá ninguém, mas é possível se tivermos empatia, se nos colocarmos em outro lugar, se sairmos da nossa zona de conforto.  Hoje não há espaço para nada que não seja o amor e a empatia, não dá para ficarmos no lugar comum. Estamos na Era de Aquário, a era das escolhas, onde as crianças já nascem sabendo mais do que imaginamos e se nos abrirmos para o novo, para aprender sem arrogância, com certeza vamos assistir o nascimento de um novo Ser Humano.

Logo em seguida a cena vai para a outra mãe, Elizangela, que vive o drama de ver sua filha Bibi (Juliana Paes) se entregando para bandidagem. Aliás, Juliana está se superando. Mais uma vez tento me colocar no lugar da mãe, sentindo a sua dor, assistindo sua filha ir embora, se distanciar cada vez mais da menina, da adolescente, da filha que ela criou.  Essas duas personagens me tocam e me fazem refletir sobre esse momento que o mundo está vivendo onde a ficção se mistura a vida real e não dá mais para saber o que é o que. Quando ligamos a TV e assistimos um futebol onde o Gol é comemorado com rajadas de metralhadoras, ou vemos ali na nossa frente à polícia sendo desafiada em uma fuga quase fantástica, ou a mãe que é cobrada pelo seu filho porque ela não vê mais o desenho, não tem jeito me coloco no lugar dessa mãe. A cena me parte o coração, ver o olhar daquela mãe cheio de esperança, apenas porque sua filha decide ver um desenho com o neto. As mães sempre veem seus filhos com o coração, nunca com os olhos.

E a TV segue, com outras séries onde como Sob Pressão e Os Dias Eram Assim, com essa mesma perspectiva: Expor cada vez mais a feridas do Brasil que infelizmente ainda não cicatrizaram.

Saudade das novelas lúdicas, como Saramandaia, Bem Amado, Gabriela, Tieta, e tantas outras onde os personagens eram tirados dos livros ou da imaginação.  Saudade das séries como Hoje é Dia de Maria, Anos Dourados, A Casa das Sete Mulheres…  Saudade…

Será que ainda teremos uma chance de através dessa poderosa ferramenta que é a Televisão assistir mudanças que venham ser Mais Influentes em nosso comportamento mudando paradigmas e realmente promovendo a evolução?

 

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